O elefante branco – O primeiro capítulo
Leitores que me acompanham… desde 2009 me dedico à escrita do meu primeiro romance. Como falo de sexualidade, e o protagonista é um jovem que se confronta com o fato de ser gay, me senti instigado a escrever algo sobre isso. Fiquei pensando que adoraria ter lido algo assim quando era adolescente. Já que não li e sou abusado, decidi eu mesmo escrever.
A Literatura, obviamente, é bem diferente do teatro. No livro eu não tenho o respaldo do ator e a palavra não é um mero meio a favor da cena. Ela é a própria cena. Ela é tudo que o leitor tem para se amparar – além de sua própria imaginação, é claro. Por isso, vocês podem imaginar que escrever um romance não tem sido uma tarefa fácil pra mim. É difícil pra caramba!
E o mais importante de tudo… de 2009 pra cá, muita coisa já aconteceu em relação ao debate sobre a homossexualidade. E me dei conta, no meio do processo, que estava com uma abordagem antiquada em relação ao assunto. Daí fiquei quase um ano parado e estou voltando ao livro, reescrevendo tudo. Decidi compartilhar com vocês o prólogo de “O elefante branco”. Pode ser que até o lançamento já não seja mais nada disso… enfim, resolvi abrir um pouco o processo de criação.
Prólogo
Romance com teor gay
Contei a Fernanda que finalmente publicaria meu livro. Ela deu um grito histérico e contagiante do outro lado da linha que percorreu as centenas de milhões de células de transmissão telefônicas, tocou meu tímpano e acelerou as batidas do meu coração. Tive que abafar o som tapando o aparelho com a palma das mãos sobre a boca, tamanho o constrangimento com a senhora que estava ao meu lado, com expressão curiosa. Nós percebemos quem é realmente importante na nossa vida quando o primeiro impulso após receber uma boa notícia é ligar para dividir a novidade. Assim acontece até com os vilões de novela mais ordinários – nenhuma maldade é tão saborosa se não houver um cúmplice com quem brindar no final do capítulo. Não significa que ao lançar este romance eu esteja me sentindo um vilão, mas sua publicação é uma espécie de vingança contra todo o dramalhão mexicano que a minha vida se transformou desde o dia em que conheci o Miguel.
- Você manteve o meu nome real? – foi a primeira pergunta dela.
Quando comecei a escrever o livro, a única preocupação da Nanda era que fosse citada na história – já que havia tido uma participação decisiva na vida real. Com o tempo, além de me questionar toda semana se ela tinha mais falas que o Tiago e eu explicasse que um livro, além de não ser uma peça de teatro, também não era uma competição para descobrir quem era melhor amigo, Fernanda um dia revelou que o que lhe atormentava era não saber se eu usaria o nome dela de verdade. Como se ela tivesse um nome de mentira. (Ok, ela tem, na conta fake no MSN). Tive que jurar, com as mãos estendidas via webcam, que era mesmo o nome dela. Se com toda a tecnologia já fosse possível enviar uma gota de sangue por e-mail, assim seria a minha promessa. Ela dizia que tinha pavor de um dia virar personagem, que a única dignidade que lhe restara com trinta anos era ser uma mulher de carne e osso. Ou, ela reiterava em cima de uma balança de farmácia, “muito mais carne e nenhum vestígio de osso”.
- Posso colocar uma frase no livro? – Fernanda implorava.
- O meu romance é uma coisa séria. Não é um abaixo-assinado para todo mundo sair rubricando ou um caderno de condomínio para os amigos deixarem seus depoimentos.
- Escreva lá – ela ignorava: “Os gays são homens superiores. São apenas inferiores às mulheres, porque (ainda) não podem ser mães. Caso contrário, os gays seriam imbatíveis.”
A Fernanda é a pessoa mais gay que eu conheço. Mais até do que eu e o Tiago juntos. Eu pensei em dedicar o primeiro capítulo do livro para refletir um pouco sobre o que é ser gay, mas depois de reler tudo percebi que ela é a melhor definição ambulante para o termo. Se eu fosse mulher eu gostaria de ser a Fernanda. E se eu fosse drag queen também.
Esse livro foi publicado com a grana que ganhei no meu primeiro trabalho profissional. Eu poderia ter feito uma viagem para o exterior – para a Argentina que fosse, não precisava nem ser à Europa – mas optei por investir meu dinheiro numa viagem interna na imensidão e no caos dos meus sentimentos, com uma passagem apenas de ida rumo às memórias mais felizes e desgraçadas, como quem anda no trilho do trem rumo ao túnel escuro que esconde uma locomotiva acelerada de lembranças que expõe nossas fraquezas e revela todos os nossos defeitos.
- Você vai gastar essa grana para escrever um livro triste?! – atacou Tiago.
Este livro não é alegre nem triste.
- Mas no Brasil ninguém lê! – , ele rebateu a minha filosofia barata atacando os poucos leitores brasileiros. – Se for para lançar um livro, que seja sobre vampiros! Pelo menos você fica rico. – e depois de refletir um pouco sobre a ideia oportunista, concluiu: – Apesar que se o Miguel não era um vampiro, ele era um sanguessuga de energia da vida real.
O Tiago é ator e está numa peça com “teor gay” segundo a diretora dele. “Peça com teor gay.” Eu fui assistir ao ensaio geral, onde a caminho do teatro ele me dizia em pânico que ainda não tinha um personagem construído e que a diretora relutava em lhe passar as marcas. O elenco, formado por outros três atores que mais pareciam ter estudado a nobre arte da atuação com doses pesadas de anabolizante em alguma academia suja da cidade, estavam compenetrados no palco com poucos figurinos. Um deles estava de sunga. O cartaz de gosto duvidoso apresentava os quatro atores sem camisa como se estivessem numa boate e com máscaras – o Tiago me contou que como conhecia o programador visual, insistiu para que ele disfarçasse o rosto de todos com uma máscara – e uma tarja fluorescente bem abaixo do título dizendo: “O primeiro beijo gay de verdade dos palcos cariocas!”. Fiquei me perguntando o que seria um beijo gay de mentira, talvez sem a língua, mas Tiago disse que era uma jogada de marketing da produção para atrair mais público.
Por que toda pessoa incompetente se considera capaz de ser publicitária?
Sentei na primeira fileira, a diretora deu esporro em toda a equipe, depois se emocionou ao fazer um discurso em círculo com os atores de mãos dadas e pediu, com garra, que eles fizessem aquela apresentação como se fosse a estreia, porque “aquelas pessoas que estão ali na plateia” – apontando para mim, a bilheteria e a mãe loura do ator louro – mereciam o melhor deles. - Se esquecer o texto, segue em frente, não para – disse a diretora.
Mal a cortina abriu, a primeira imagem do espetáculo era o Tiago nu, de costas, tomando banho. Aquela expressão popular “com a bunda virada pra Lua”, que significa sorte, no caso do Tiago havia se transformado em “com o cu virado pra plateia”, que naquele contexto representava o exato oposto, o mais triste azar para quem começa a sua carreira profissional nas mãos de gente oportunista. Tiago, com toda a cara de pau peculiar, era talentoso e carismático, conseguiu arrancar as poucas risadas daquela uma hora de tortura que seguiu no mais perfeito mal gosto, com atores errando texto, marcas e parando toda hora. Ao final da apresentação, bastante constrangida, a diretora pediu para que dessemos licença para ela se reunir com os atores – onde mais tarde diria que estavam todos péssimos – e eu não resisti:
- O que é uma peça com teor gay?
- Eu não sei… – ela se desconcertou com a minha pergunta inesperada. – Foi uma exigência da produção e a melhor ideia que eu tive foi abrir o espetáculo com a nudez do Tiago.
- Eu sou gay e achei uma cena de mal gosto – eu disse.
- Respeito a sua opinião, mas a arte é subjetiva – a diretora se defendeu como se falasse de um quadro de Van Gogh.
- Seguindo a sua lógica, uma peça com “teor hétero” pode ser feita num puteiro.
A mãe loura ficou chocada e engasgou ao dar um gole na água da garrafinha de plástico; o elenco arregalou os olhos e Tiago soltou uma gargalhada, como quem é demitido do emprego mas não perde a oportunidade de sair e debochar de seu chefe. Eu e Tiago fomos convidados a nos retirar do teatro. E no dia seguinte a peça estreou com outro ator…. pelo que soubemos, um ex-participante de reality show.
A função deste prólogo é preparar qualquer desavisado que não vou apelar para nudez ou cenas de sexo explícito para escrever um romance que, porventura, receba qualquer rótulo gay. Embora, se Literatura é a palavra, eu esteja me contradizendo já que abri o livro também com a bunda do Tiago. Mas foi apenas um descuido e efeito da minha falta de intimidade com a escrita. E para assumir logo a verdade, especialmente pela minha falta de intimidade com o sexo também. Se eu tivesse transado mais, é certo que os capítulos seriam bem mais picantes.
O meu irmão, dentro da sua mais profunda grosseria para demonstrar carinho, disse que Para um gay até que tu é um cara bem normal. (Talvez ele esperasse que eu fosse um mutante!). O Lucas tem razão, ser gay é normal. E não é uma questão de evolução da mentalidade do povo. Ou porque agora, mais do que nunca, o capitalismo descobriu que nós temos dinheiro para gastar e por isso o mercado exige que sejamos aceitos. Não é porque os gays são os personagens divertidos do núcleo cômico da sua novela. Ou porque um filme que retratou um romance entre dois cowboys foi indicado ao Oscar. Ou porque um gay foi campeão de votos no Big Brother Brasil. Ser gay também não é mais nova moda do próximo verão. Não é apenas uma bandeira que arrasta milhões nas passeatas e se tornou um evento milionário. Ser gay é normal porque as pessoas sentem desejos. E não querem se sentir culpadas por “respeitarem sua natureza”, como disse o Rick Martin. Ou então vão acabar no banco dos réus da sua própria consciência e machucando outros a sua volta, como foi o caso da minha tia, que depois de vinte e cinco anos de casada, descobriu dentro do armário das Casas Bahia não só o meu tio, como também o jovem amante dele das aulas de natação.
Como entender que descobrir-se gay não é nenhuma monstruosidade? São tantas descobertas na adolescência que eu perdi noites e noites de sono buscando decifrar o pesadelo que era me considerar normal e um dia, passar a ter consciência do terror que é ser ridicularizado como diferente.
O homem tem vocação para o drama. Uma mãe que perde o filho experimenta toda a dor da perda quando recebe pela primeira vez o impacto da notícia e depois, sempre que diz estar sofrendo porque seu filho faleceu, está sublinhando um estado de dor, está dramatizando.
Ser gay me tornou dramático.



