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Chico Xavier, o filme

Assim como muita gente, eu pensei que o cinema nacional em 2010 seria de Lula. Mas, ao parece, ele já é de Chico Xavier. Fui ao cinema na última quarta-feira, ansioso para assistir o filme sobre a vida do medium e curioso sobre a temática espírita (só agora o cinema nacional parece ter descoberto esse “mercado” que rende tantos sucessos às novelas e outras centenas de peças em cartaz nos teatros).

Além de simpático ao espiritismo, sempre tive grande respeito por Chico Xavier e admiração pelo trabalho de Daniel Filho, diretor do filme. Por isso tudo, já fui ao cinema tendendo a gostar.

O roteiro abre muito bem “Chico Xavier” dizendo que a história de um homem como ele não caberia num filme. Parece óbvio, mas é um aspecto que deve ser apontado. Pois em casos assim, o perigo é sempre alguém desmercer a obra alegando que “faltou mostrar isso, faltou mostrar aquilo”.

 Acredito que assim como no teatro, quem vai ao cinema, geralmente, quer sentar na poltrona e ver uma história sendo contada. E se envolver. E se emocionar. E, com isso, repensar a sua própria vida. E o filme “Chico Xavier” me causou exatamente essa sensação agradável.

Ouvi comentários sobre a qualidade técnica do filme, do tipo: “É uma história legal, mas como filme, não”. Como filme, não? O que é um filme então?, eu me pergunto. Quando ouço comentários assim, penso o quanto ninguém mais que o próprio brasileiro – e, muitas vezes, a própria classe artística – é quem mais torçe o nariz para seu próprio cinema. Parece que o fracasso subiu a nossa cabeça e não podemos admitir que o cinema nacional faça sucesso nas bilheterias ou seja uma pipoca bem comercial. Eu, pessoalmente, não tenho nada contra isso. Sinto um certo alívio quando um filme brasileiro não precisa se render ao Nordeste ou à favela pra se fazer interessante ao público.

Uma vez ouvi do amigo argentino, Lucas Fuente: “O brasileiro não valoriza os artistas brasileiros”. É bem por aí. Não sabemos lidar com o próprio sucesso. Somos eternos envergonhados do próprio talento. Existe um ranso com as novelas que ninguém pode admitir que um filme dirigido por um diretor global com atores globais seja bom. É preciso desmerecer, só um pouquinho, pra gente se sentir melhor do que eles.

“Chico Xavier” cumpre bem o seu papel principal: nos faz admirar a vida daquele homem e sentir curiosidade, ou para os preconceituosos, um pouco mais de respeito, em relação à religião espírita. Os atores no filme rendem muito bem e isso é mérito também do diretor. A cena em que Cristiane Tornoli recebe a carta do filho dá um nó na garganta e é daquelas em que a rubrica deve vir assim para a atriz: “Quer mostrar que é atriz mesmo? Então toma!”. O elenco está maravilhoso, mas o que me chamou atenção mesmo foi a trilha sonora de Egberto Gismonti: sensível, delicada, inspirada!

Saí emocionado do cinema. E assim como no dia Copa, em que fomos campeões, os brasileiros deveriam estar alegres por uma prensença tão iluminada como a de Chico Xavier em nossa história. O filme é uma linda homenagem.

ps. agora, uma pergunta: e o dinheiro arrecadado com a bilheteria do filme? Seria muito coerente e honesto com a história de Chico que parte desse dinheiro fosse doado, assim como a renda dos livros dele, para instituições de caridade. Aí sim, acho muito feio se o filme “Chico Xavier” não contribuir para a causa que deu sentido à vida de seu homenageado.

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