Maracujá
Aquele final de tarde era saboroso e especial. Sentadinha com impressionante delicadeza e cuidado “pra não amarrotar o vestido” (a mãe sempre bronqueava!), acomodou-se no desconfortável banquinho de madeira com olhos que brilhavam sorvete de maracujá.
Era uma pintura aquela menina de amarelo sentadinha ali, sozinha, pés descalços e sujos pelo marrom da terra encharcada de infância, sob os olhos atentos do Papai do Céu que providenciara, depois da chuva, um manto alaranjado repleto de luvens de elefante. “Nuvens. Nu-vens de elefante”, a mãe também corrigia.
Por encanto, mágica, contemplava com olhos fixos o sorvete de maracujá, um amarelo tão amarelo igualzinho a esse que fascina gente grande e velha: o amarelo sol, amarelo ouro. Via-se refletida no doce amarelo e o mundo todo cabia dentro dele ao passo que escorria entre seus dedos. Ali eram só os dois: ela, o mundo e mais ninguém.
Aproximou-se – água de chuva, água na boca – e tascou-lhe uma sapeca lambida. Fechou os olhinhos. Sonhou. E no auge de seus risonhos 6 anos, aventureiras primaveras de descobertas, agora ela estava diante de um problema: a exata dimensão, cruel e injusta – adulta porque não dizer? – que envolve qualquer existência: o fim.
Alguns segundos ousou não tocar no sorvete. Desejava o não-acabar, queria o pra sempre. Mas o sabor já não era só seu. Pertencia ao tempo, ao Senhor Tempo, que trata de dissolver todas as sensações junto com ele e, talvez por consolo, nos deixa lembranças. Assim, a menina lançou-se novamente ao doce, lambuzando-se de amarelo. Quem sabe tomando pra si, o mundo não seria só dela?
“O que você tá fazendo?”, gritou a mãe, puxando a filha pelos braços. “Sorvete com esse frio?” “Cadê o seu pai?” Não bastasse uma pergunta atrás da outra, veio a ameaça. “Você vai apanhar se tiver sujado a roupa, ouviu?”.
E a menina de amarelo chorou, com o vestido manchado de sorvete de maracujá.
Foto de Colin Anderson
ps. Escrevi este conto em 2005 e por mais que o releia desde então, não consigo mexer em nada. Inclusive, foi o primeiro e único conto que escrevi na vida.
Tags: Chuva, Infância, Maracujá, sorvete


