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Novas diretrizes em tempos de modernidade

Para muitas pessoas a chegada do ano novo é o pretexto ideal para tomarem uma série de resoluções que deixaram para trás nos outros trezentos dias do ano. Antigamente, era no ano novo que nossos pais decidiam começar uma dieta, beber mais água, parar de fumar, fazer uma faxina “daquelas” no quarto e mudar os móveis de lugar. Desfaziam-se das roupas que não usavam mais, reliam cartas antigas e se emocionavam com fotos do filme de 36 poses. Mas isso era antigamente, durou até 1998, hábitos desse povo que nasceu no século passado.

Com a crescente popularidade da internet, e sua ascensão com o império das redes sociais, o final de ano agora traz consigo uma nova série de tarefas que marcam nossos ritos de passagem.

Jogue as cartas fora. Final de ano é tempo de reler seus e-mails antigos. Tempo de sentir saudade do amigo que lotava sua caixa de entrada com e-mails diários vindos do computador do trabalho dele diretamente para o seu computador. Também do seu trabalho. É tempo de rir com as piadas internas daquela época e perceber que aquele seu amigo nunca mais escreveu. E você, motivado pela saudade, ainda clicará em “Responder” por impulso e vai constatar que além da amizade, a conta @hotmail dele também não existe mais.

É tempo de vasculhar suas mensagens antigas e encontrar alguma apresentação de Power Point de 5mb que sua mãe mandou logo na primeira semana que ela criou o e-mail dela.

Ano novo é o pretexto para bloquear todos os contatos indesejáveis do MSN, especialmente quando um deles é alguém que você nutre um amor platônico desde o ICQ e o máximo de conversa que consegue é uma troca de carinhas. Tempo de reler o histórico de conversas, apagá-las e começar do zero.

Tempo de acessar seu MSN depois de anos e descobrir que você sequer lembra a senha dele.

Claro, é hora de atualizar suas senhas. E tentar padronizá-las para não carregar para o ano que se aproxima o desespero de ter 15 senhas diferentes para cada um dos 50 cadastros que você já fez por aí. Vai prometer para si mesma que não vai mais acessar o e-mail do seu namorado escondido nem que vai tentar roubar a senha de ninguém para descobrir um monte de merda que você sabe que está ali.

No final do ano você escolhe a sua melhor roupa e tira aquela foto linda e casual para atualizar o perfil do facebook. E por falar no face, é hora de deletar 60% dos contatos da sua lista, especialmente aqueles que nunca interagiram, os invejosos, os que nos marcam em cartões de Natal e os outros tantos para o quais você postou uma série de indiretas.

Tempo dos picos de natalidade e mortalidade na rede. Nunca morrem tantos blogs num só mês como acontece em dezembro. Nunca surgem tantos blogueiros como se vê em janeiro. O início do ano parece o momento ideal para qualquer um revelar sua vocação para a escrita que os amigos insistem tanto em elogiar. Então você cria seu blog e depois de 3 comentários na primeira semana, e algumas visitas esporádicas naquele texto que você falou mal do novo clipe da Lady Gaga e uma enxurrada de fãs vieram te esculhambar nos comentários dizendo coisas do tipo “Quem é você pra falar mal dela?”, também vai descobrir que recebeu algumas visitas do carinha que digitou “sexo com frutas” no Google e caiu no seu post sobre uma receita de torta de maçã. Você verá sua motivação cair no limbo dos blogs abandonados e que serão assassinados sem dó nem piedade… em dezembro.

Se o seu blog sobreviveu ao primeiro ano, em 2012 você vai querer ter o seu domínio próprio.

Para os mais atrevidos, final de ano é o momento de tomar coragem e arrumar a bagunça… do seu quarto? Claro que não. Eu me refiro ao seu computador! Tempo de organizar as centenas de arquivos perdidos em pastas com nomes toscos. Tempo de redescobrir fotos do churrasco com seus amigos pelados dentro da piscina e da pasta “Meus documentos”. Nela encontrará também um trabalho perdido de História do terceiro ano, episódios de séries que você baixou por puro capricho e nunca assistiu e, claro, fotos de você beijando quem não devia e tudo mais que pode comprometer a sua sexualidade.

Para os nerds, que já passaram o fim do ano passado organizando as pastinhas, eles reorganizarão tudo de novo, dessa vez padronizando os nomes de cada documento. Ao invés de “Nome do arquivo – Subtítulo” (tudo em Maiúsculo) vão achar mil vezes melhor “subtítulo_nome do arquivo” com tudo em minúsculo.

Tempo de decidir, de uma vez por todas, se vale a pena ou não, ficar guardando as fotos de viagens com o ex-namorado.

Nos tempos modernos, a chegada do ano novo faz você desinstalar programas não usados e com datas expiradas. E vai fazê-lo pensar no tão adiado backup dos arquivos de trabalho, das fotos e de todas as MP3.

E vamos brigar com o melhor amigo que caga toda a nossa faxina virtual quando salva arquivos na área de trabalho ou infecta seu computador com vírus porque ele clicou em algum aplicativo do Orkut. Na verdade, você avalia se vale a pena mesmo manter qualquer tipo de relação mais íntima com quem ainda frequenta o Orkut.

Vai prometer responder todos os e-mails imediatamente, assim que chegarem na sua caixa de entrada.

E primeiro de janeiro será oficializado como o dia mundial do novo papel de parede.

Vai tentar ficar um pouco menos conectado ano que vem. Não passar tantas horas do seu dia em frente ao computador, trocando a paisagem real pelo álbum de fotos dos outros no flickr ou instagram. Tentará ouvir o canto dos passarinhos azuis de verdade e menos o blablablá do twitter.

E se depois disso tudo, ainda descobrir que esqueceu de organizar os seus “Favoritos”, relaxe. Afinal, uma coisa nunca vai mudar no ser humano: a nossa capacidade de não-cumprir nenhuma das nossas promessas de final de ano.

Feliz Natal e 2012!

O Retorno de Saturno

Entre os 28 e 30 anos, Saturno, um planeta até então insignificante em nossa humilde existência terminará uma volta completa e passará pelo mesmo ponto quando nascemos. Uma espécie de translação de Saturno em torno do Sol. Sabendo que o Sol somos nós mesmos. A astrologia chama esse episódio transformador em nossas vidas de “O Retorno de Saturno”.

Saturno retorna para que nosso movimento de rotação, esse que levou quase três décadas em que ficamos girando em torno de nosso próprio umbigo, cesse por alguns instantes e possamos perceber que somos apenas mais uma estrela dentre as centenas de milhões que habitam uma galáxia caótica.

Acredita-se que é no retorno de Saturno que nos tornamos adultos. Ou pelo menos é quando ganhamos a consciência que devemos nos tornar um. É quando você fará as perguntas mais difíceis de responder. E se não tiver coragem de se questionar profundamente sobre quem é ou quem deseja ser, o universo vai fazer isso por você. Na marra.

É quando entrar nos 28 anos que estará com plena consciência da sua capacidade transformadora e entenderá em que potência poderá mudar o mundo. Veja o meu caso, por exemplo. Eu me enxergo escritor. Eu tenho certeza que a minha forma de lidar com o mundo é através da palavra, eu sei que é através dela que eu gero uma energia mínima capaz de deslocar algumas particulas a minha volta e provocar alguma transformação.

Só que você também percebe como é muito pequenininho e que o mundo está cagando para a sua individualidade. Que o mundo já tem as suas próprias regras estabelecidas e possui uma estrutura extremamente rígida que permanecerá inabalável a menos que você se esforce bastante para arranhá-la. Serão muitos os que tentarão invadir esse castelo de cartas e vão morrer no meio da batalha. Se você for artista então, pior. Mais cedo do que todo mundo vai avistar ao longe aquele castelo imenso. E vai querer – quase como um lunático – , alertar aos seus companheiros de tropa que o perigo está logo ali e fazê-los enxergar uma muralha enorme erguida com tijolos cheios de moral, valores ultrapassados e desigualdades sociais.

Explico de uma forma prática: você vai descobrir que para ser escritor, esse seu desejo pessoal e genuíno, você não terá regalias por mais talentoso e bem intencionado que seja. Perceberá que o mundo possui um sistema de organização financeira muito maior do que esse seu mero sonho de viver escrevendo livros ou peças de teatro. Que não importa quão bom seja esse seu novo romance, o boleto da conta de luz estará pontualmente no início do mês na sua caixinha de correio. Vai perceber que a sua profissão não premiará necessariamente quem é talentoso. Terá consciência que o universo é constituído de uma substância chamada “caos” que por sua vez se constitui, dentre outras coisas, de sorte, contatos, carisma e bastante fé.

Algumas dessas estrelas, quando ganharem a profunda consciência do que é ser adulto, vão sofrer o seu primeiro big bang. Então você será lançado a uma pergunta cruel e muitas vezes fatal: nesse mundo que eu habito, eu tenho possibilidade de ser o que eu quero? Ou melhor, a questão é mais complexa: eu ainda quero ser o que eu sou sabendo que o mundo que eu habito funciona desse jeito? É possível conciliar a minha capacidade artística com o mundo capitalista? Eu tenho condições de pagar as minhas contas e me realizar profissionalmente? Eu posso ter ambições materiais vivendo daquilo que eu mais gosto de fazer?

Em nome da qualidade de vida que eu quero ter nos próximos 30 anos, eu terei que abdicar de alguns sonhos para construir outros? Afinal, eu não tenho mais quinze anos. Afinal, eu não vivo mais a curto prazo. Agora que estou prestes a fazer trinta, eu estou obcecado olhando para o futuro. Peraí, não fui que planejei ter um filho aos 32? Mas como, se eu tenho quase trinta e ainda não dei entrada no meu apartamento! Como assim, como foi possível que as coisas pegaram esse rumo? Eu ainda moro com os meus pais!

Saturno retorna como se a sua vida fosse uma espécie de show do milhão e faz a pergunta decisiva: tem certeza disso?

Você fica ali, meio estático, meio paralisado, querendo pedir socorro para a sua mãe, com saudade do tempo em que a sua maior preocupação era alcançar a média cinco no colégio. Ou simplesmente não ser mais BV.

Agora, com quase trinta, você já se apaixonou, já namorou, já terminou namoro, já teve traumas e frustrações românticas. Já causou esses mesmos traumas e frustrações em outros. Já beijou na boca, mas não transa de verdade faz meses. Já se casou e está arrependida, mas sem coragem de terminar. Ou ainda não conheceu ninguém, todos os seus amigos estão namorando e você já se enxerga solteira aos quarenta e cinco topando um romance com o primeiro serial killer que conhecer no bate-papo do UOL. Opa, eu sou do tempo do bate-papo do UOL!

Ou talvez você não terá se confrontado com nenhuma dessas questões. Ou porque nasceu rico e não precisou crescer nunca, ou porque nasceu na miséria e precisou virar adulto aos dez anos de idade. Sabe o que é ser adulto desde cedo porque nunca teve infância. Ou sei lá, você cresceu rico e é foda. Nasceu pobre e é foda também. São tantas possibilidades, são tantas histórias.

Desconfio por que todo adulto nos pergunta num puro exercício de sadismo “E aí, o que você quer ser quando crescer?” Eles nos perguntam isso aos dez anos, o Vestibular nos questiona aos dezoito. Adultos perguntam apenas para invejar a nossa paz de espírito. Eles sabem que quando chegamos aos trinta, a surpresa: ué, eu já cresci! E pode ser que me olhe no espelho e não me reconheça ali.

Deve ser por isso que tanta genial da nossa música morreu aos 27! Seus covardes que fugiram do retorno de saturno!

Em tempo: aos dez anos eu dizia que queria ser astronauta. Não por ter o plano ardiloso de conhecer Saturno antes da hora. Imagino que era só a forma de uma criança dizer que queria ter nascido com a bunda virada pra Lua.

O príncipe encantado

Você leitora certamente já sonhou com seu príncipe encantado em algum momento da vida. E me refiro a sonhar no passado porque você também certamente já conheceu uma série de homens que destruiram seu castelo de ilusões tijolo a tijolo, deixando-a soterrada sob os destroços de promessas de amor, ligações no dia seguinte que nunca aconteceram, sumiços repentinos e, quando não, com grosserias absurdas.

Foi-se o tempo que a mulher buscava um príncipe encantado dos contos de fada, afinal, nenhuma de vocês hoje em dia fica séculos adormecida esperando acordar com um beijo apaixonado ou topa conviver com sete anões tarados esperando o seu homem num cavalo branco. A mulher de hoje acorda cedo, trabalha, quer a sua independência financeira e ainda carrega nas costas o peso de dezenas, centenas de anos de donas de casa histéricas com os afazeres domésticos. A mulher que beija sapo esperando o príncipe encantado chegar morre afogada no brejo.

As mulheres, se é que me permitem falar por vocês, estão desamparadas e perdidas com a falta de sensibilidade masculina e tem caído seu crítérios de seleção drasticamente nos últimos anos. Pesquisa revela que existem 10 homens para cada 9 mulheres no Brasil. Desses, acredito que pelo menos 3 sejam gays, o que agrava ainda mais a estatística e significa que agora mulheres feias realmente estejam sobrando e os homens feios pegando muito mais. Os sapos nunca estiveram tão em alta! Com isso os critérios femininos mudaram, já que os caras toscos parecem razoáveis, os razoáveis parecem ótimos e os ótimos, bem, estejam eles próprios se beijando.

A dama deseja ser cortejada. E isso não tem nada a ver com romantismo ou tradição, é apenas bom-senso. Cara, essa é pra você: a mulher não quer que você a leve para jantar num boteco de esquina. E pega muito mal ir de calça de moletom.

Marque um encontro com um garota. Se ela aceitar, ela dificilmente não vai dar o melhor de si. A mulher se arruma, escolhe a roupa com cuidado, reclama que não tem roupa, troca de roupa várias vezes, toma um banho, fica cheirosa, ensaia frases de efeito… E o homem, o descarado, se sente no direito de chegar no encontro com a mesma roupa que passou o dia inteiro trabalhando, isso quando não vai buscá-la de ônibus ou sem muito esforço aceita dividir o táxi.

O príncipe encantado folgado está perdendo espaço para o sapo bem vestido. Um sapo inteligente, que tem bom papo, que vai buscar a mulher em casa de carro e faz questão de abrir a porta pra ela entrar, o sapo que a leva num lugar charmoso tem valido mais a pena que um galã desajeitado. Afinal, por trás de toda essa busca pelo amor, no fundo a mulher carrega consigo um desejo sublime, inquestionável: o de ser mãe. Por mais que muitas de vocês não planejem isso, é quase instintivo do sexo feminino escolher o melhor parceiro para perpetuar nossa espécie com o que tem de melhor por aí.

Só que o mercado está em crise. Vocês já perceberam e não é novidade para ninguém. O que intriga é que mesmo sabendo disso tudo, na hora de se apaixonar a mulherada só caí na isca de quem trata mal, pisa e desaparece. A mulher, dentro da sua complexa imperfeição, está se acostumando a ser mal-tratada. E nos dias de hoje não é mais nenhuma princesa, está muito mais para a mulher das cavernas, puxada pelos cabelos, apanhando com toco de madeira e enfurnada dentro de uma caverna de desejos conversando com a lua.

Cobrança

Para brincar no videokê, ela precisava de uma aula de canto. E para sair com suas amigas, ela tinha que estar um pouco mais magra. Quando criança, cobrava-se ter sempre o dinheiro pra merenda e por isso preferia não comer. Jovem, gostaria de estar mais confortável de grana e então inúmeras vezes deixou de viajar. De tanto esperar o príncipe encantado, por pura cobrança, ela não transava com ninguém. Por sentir-se feia deixava de sair. Por sentir-se chata deixava de conhecer pessoas novas. Por não ter um bom emprego ela preferia matar o trabalho. Ela cobrava-se ser a melhor e por isso sofria com a possibilidade de ser mediana.  Cobrava-se os melhores perfumes e deixava de sentir o aroma de seu corpo nu. Cobrava-se um carro e por isso perdeu o prazer de caminhar. Cobrava-se apenas os melhores pensamentos e por isso vivia culpada. Cobrava tanto de si mesma, que cobrava muito mais dos outros. Deixava de enxergar grandes qualidades por conta de besteiras, de bobagens. Cobrava-se não usar drogas, cobrava-se não beber e cobrava não mentir. Nunca se permitiu dançar. Nunca se permitiu ser ridicularizada.

No fundo, e esta é a mais profunda verdade, ela só queria desafinar as mais altas notas no videokê, não estar tão cheirosa ou bem vestida assim; só queria estar descabelada e gorda e sentir-se um pouco ridícula, bêbada e drogada, e ser salva não por um príncipe encantado, mas por um homem bruto qualquer que a levasse para a cama e no dia seguinte não desse nem tchau. E ela voltaria à pé, respirando um certo aroma de alívio, e não tomaria o melhor café da sua vida naquela manhã, mas curtiria a possibilidade do café que era possível naquele momento. E faria planos futuros pensando na mixaria que ganhava no trabalho, e naquele dia chegaria um pouco atrasada no escritório. Mentiria para o chefe com uma desculpa mirabolante e não sentiria uma gota de arrependimento. Ela queria ser feliz. Medianamente feliz. E normal.

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