Drama Diário e os seus “Musos inspiradores”
Em 2007, ainda cursando direção teatral na UFRJ, tive a ideia de um projeto chamado “7 pecados”, onde a proposta era reunir sete autores, sete diretores e sete atores para montarmos monólogos inspirados nos sete pecados capitais. O evento ferveu a faculdade e quando concluí o curso, e gostaria de furar a bolha da nova dramaturgia carioca e ainda investigar jogos possíveis entre dramaturgia e internet, criei o projeto “Drama Diário” (este nome só veio depois e foi batizado por Camilo Pellegrini, querido companheiro de jornada no site).
O Drama Diário chegou com uma proposta ousada e, ao mesmo tempo, despretensiosa: a cada semana um tema, a cada dia uma cena diferente escrita por um dos sete autores da nova geração. Começamos o site sem muita ideia do que aquilo iria dar, mas unidos e empolgados com a possibilidade de um exercício semanal. O compromisso e responsabilidade de escrever uma cena inédita toda semana, dos temas mais clichês aos mais absurdos, e manter ao mesmo tempo o espírito de brincadeira, de experimentação, era um gostoso desafio.
Organizamos uma festa de lançamento no Galeria Café (agradecimento a Andrea Mattar) para a semana de estréia e na segunda-feira, 19 de maio de 2008, nascia “Drama Diário” com uma leitura dramatizada na Casa da Gávea (agradecimento especial a Paulo Giardini), onde cada um dos sete autores apresentava uma de suas cenas. O evento lotou, a festa bombou e o site rapidamente estorou na imprensa. Sem querer, estávamos com um super projeto em mãos: sete novos promissores autores, com estilos de escrita muito diferentes, e uma máquina de produzir textos.
Inevitavelmente, vieram muitas matérias, muitas propostas de peças a partir de cenas do site e nosso primeiro espetáculo - ”Meu primeiro anão” – que reunia 7 atrizes, 7 diretores e 7 monólogos cômicos inspirados em cada um dos sete anões da Branca de Neve. “Drama Diário” ia ganhando, aos poucos, um clima cada vez mais agregador e jovem… somaram-se ao projeto inúmeros atores, produtores, diretores e uma infinidade de artistas com vontade de dialogar com aquela produção de dramaturgia incessante. A proposta nunca foi escrevermos textos impecáveis. Nosso desejo era apenas escrever, produzir.
E produzir conteúdo para a internet. As cenas curtas, velhas conhecidas do público e chamadas “Esquetes”, vestiram como uma luva num meio ágil, de leitura rápida e que exige dinamismo como o online. Então, aos pouquinhos, fomos descobrindo que poderíamos brincar e ir além do texto: eram links para músicas antecipando as cenas, falas escritas entrecortadas por vídeos ou imagens ou links para outros sites. Essa é a era do “tudo ao mesmo tempo agora”, em que você lê, ri, vê televisão e ouve música.
“Drama Diário”, aos poucos, se transformou em referência para atores que buscavam cenas curtas para exercitar em sala de aula ou montarem em festivais. Virou estímulo para quem desejava ser autor. Virou a leitura diária de muita gente. Passamos a receber e-mails carinhosos de todo o Brasil de estudantes de teatro que nos diziam “Montamos uma cena de vocês em sala de aula”. Assustador? Pois sim. (nesse sentido, é muito importante agradecer ao diretor e também dramaturgo Diego Molina, grande incentivador e divulgador do site em seus cursos de dramaturgia em todo o país).
Hoje, depois de 2 anos com o site no ar e mais de 450 cenas inéditas publicadas, o “Drama Diário” já é o MAIOR ACERVO DE DRAMATURGIA COM CONTEÚDO INÉDITO DA WEB. Eu sei, é brega escrever em caixa alta, mas é para chamar a atenção das empresas que custam a entender a dimensão e importância artística de um projeto que tornou-se pioneiro. Tanto que foi plagiado depois. HÁ-HÁ-HÁ. Pois é muito legal perceber como não é moleza escrever toda semana sobre um tema diferente e que a nossa experiência do exercicio semanal é um super aprendizado.
E isso se deve, sem falsa modéstia, ao empenho e capricho que todos os envolvidos tem com o projeto. “Drama Diário” nunca teve cara de projeto amador. Mesmo sem grana, nasceu metido à besta. Tinha nome de gente importante, logotipo (feito pelo meu pai!), estudo de paleta de cores… sempre desejei um site organizado. E toda semana, rigorosamente, tinha alguma cena nova lá. A falta de incentivo nunca nos impediu de produzir. O único gasto com o projeto seria fazer o site em si, mas como desde adolescente aprendi alguma coisa de web, eu mesmo fiz a página.
E agora vamos ao motivo deste post. Escrevi todo esse prólogo para anunciar um grande presente: próxima segunda-feira, dia 05 de julho, reestreamos estendendo o tapete vermelho para os nossos “Musos Inspiradores”. Desde 2008 temos vontade de convidar grandes autores para escreverem conosco e fazerem uma espécie de participação especial no site. E a hora chegou, talvez no momento mais bacana e feliz do projeto, em que “Drama Diário” virou gente grande.
Receberemos sete autores convidados postando cenas no site. A ideia nasceu de uma pergunta: que autor nos inspira a escrever? Quem é a sua referência de trabalho, o seu muso inspirador?
A semana começa com Adriana Falcão (convidada de Renata Mizrahi), terça-feira com Cristianne Fridman (convidada de Camilo Pellegrini), quarta-feira com Jorge Furtado (convidado de Julia Spadaccini), quinta-feira com Nélida Piñon (convidada de Carla Faour), sexta-feira com Newton Moreno (convidado de Rodrigo de Roure), no sábado Fausto Fawcett (convidado de Henrique Tavares) e no domingo, fechando a semana especial, Miguel Falabella (o meu convidado!) Semana que vem escrevo um post sobre o Miguel!
“Musos inspiradores” é uma homenagem à dramaturgia brasileira e um brinde em comemoração ao aniversário de “Drama Diário”, com o desejo de que ainda renda muitos frutos. Não deixem de conferir o site novo, reestruturado pela maravilhosa Kika (a mesma mãe desta melancia), agora com sistema de busca, pesquisa por tema, autor e tudo que o site e os leitores merecem de melhor.
Quero agradecer a todos os meus companheiros e amigos em “Drama Diário”, pois o brilho do site só existe graças à luz do talento de cada um deles.
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