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postado em 20/08/2010 às 1:54 pm |
Dramaturgia |
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Para ler ao som de “Non, je ne regrette rien”. Junte o medo de dentista com uma decepção amorosa.
A cena acontece num quarto sujo e escuro de Paris. Uma mulher, amordaçada, debatendo-se e amarrada numa velha cadeira de dentista. Tem um aspecto de cansaço, como quem lutou bastante (literalmente) para escapar daquela condição. O doutor, um dentista frustrado pelo amor não-correspondido.
Off. “Não tenho cárie não, doutor, nenhuma!”
Esta frase repete-se durante toda a cena, vez por outra marcando as viradas de clima, vez por outra servindo de mote para enlouquecer ainda mais o dentista. Embora ele diga coisas ridículas, às diz com toda seriedade e verdade dos apaixonados e desiludidos.
Dentista (VIRA A CADEIRA DA MULHER PARA SI. PROFUNDAMENTE MAGOADO E CONCLUSIVO) Boca é boca, beijo é beijo. (COLOCA UMA LUVA RASGADA) Você podia ter me dado uma chance, só uma, que eu te mostrava que não tem ninguém nesse mundo que fosse te fazer mais feliz do que eu. “Amor”, amor mesmo, amor romântico, não é amor barato não; é amor. Amor! Não é paixão não, porque paixão é luxo, é flúor. Amor é outra coisa, é escova de dente. Amor é todo dia.
Off. “Não tenho cárie não, doutor, nenhuma!”
(ASSOBIA O REFRÃO DE NON, JE NE REGRETTE RIEN) Você falou demais, mas não falou nada, nadinha do que eu queria ouvir. Eu tô com tanta raiva de você, tanta raiva, que mesmo se você já estivesse morta, eu te matava agora. Você me fez de bobo. (COLOCA A OUTRA LUVA) Hoje a consulta vai ser diferente, você vai ter que tirar a roupa (Abre a blusa da mulher e chupa o seu mamilo esquerdo) Eu tenho tesão em você. (AVANÇA PARA BEIJÁ-LA) Mas a sua boca fede. Por trás da sua beleza, quer dizer, por dentro de você, é tudo imundo. Nunca soube se você arrotou ou peidou. (COLOCA A MÁSCARA DE ROSTO) Perceba o esforço que eu estou fazendo, reconheça o meu amor pelo menos uma vez na vida. Você nunca disse que me amava. Nunca. A sua boquinha engoliu o meu leite, mas nunca engoliu que eu era o único homem capaz de te fazer feliz de verdade.
Off. “Não tenho cárie não, doutor, nenhuma!”
(A MULHER INQUIETA-SE NA CADEIRA TENTANDO SOLTAR-SE) Eu não tenho mais nada pra te dizer. Eu concordo sim, concordo que você nunca mentiu pra mim. Mas você fez coisa pior, muito pior. Você omitiu. E omissão pra mim não é covardia, é mal-caratismo. (FURIOSO MAS TENTANDO CONTROLAR-SE. SEPARA OS INSTRUMENTOS DE TRABALHO) Amor é igual dentadura, tem que encaixar. Tem que encaixar direito! (AVANÇA COM UMA AGULHA PRA CIMA DELA) Amor é igual dentadura porque se não encaixar direito pula pra fora, vira piada, é ridículo. (VOLTA A SI) Eu não vou falar mais nada, não. Eu jurei pra mim que não ia falar, que eu ia te ouvir. Mas anota aí… (ENTREGA UM PEDAÇO DE PAPEL PRA MULHER) Escreve o que eu tô te falando. É a última coisa que eu vou te dizer. Anota aí: Em terra de desdentado quem tem dente é rei. Não… Quem tem língua é rei. Porque pode falar, pode botar pra fora, pode sentir o gosto, apreciar… apreciar…. (PASSANDO A MÃO NO CABELO DA MULHER)
Off. “Não tenho cárie não, doutor, nenhuma!”
Você me usou, Malu. Você me seduziu descaradamente. Você podia ter vindo aqui uma vez só, mas você fez questão de vir sempre, de marcar consulta toda semana, só pra ter o prazer de me seduzir. Esse lugar era limpo. Depois que você chegou, eu passei a viver na imundície. E você chegou aqui, você era um monstro com a boca inchada. “Não tenho cárie não, doutor, nenhuma, umazinha que eu não tenho. Nunca fui mulher de cárie. Mulher que tem cárie não presta, é vagabunda!” Malu, você é um lixo, você é podre. Malu, você não vale um plano de saúde. “Amor”, Malu, amor não tem carência, não. Amor não tem prazo de validade. Amor é igual obturação, é pra sempre. (LIGA O RADINHO. EDITH PIAF CANTA PADAM, PADAM) Você podia ter ido embora, eu nunca te segurei aqui. Mas você fez questão de me atormentar. Era impossível conviver contigo e não me apaixonar. Quando você não vinha aqui, eu ficava imaginando onde você estava. (LIGA O MOTORZINHO E A AMEAÇA. AO SOM DE PADAM-PADAM) Padam, padam… Eu fiquei te esperando, você não apareceu ontem… Piranha! (ESPIRRA SANGUE EM SEU ROSTO) Abre a boca. Abre a boca! (ALTERADO) ABRE A PORRA DA BOCA! Você vai aprender a ter atitude, a fazer as coisas sozinha. (ACALMA-SE) Me dá um cigarro. Pronto. É assim que você quer, é assim que vai ser. Vou ficar sentado aqui até você abrir a boca e me dizer alguma coisa. Foda-se se a sua boca apodrecer, foda-se! (APLAUDINDO) Ó, fodinha você, fodinha tá! (LIGA O SOM NO ÚLTIMO VOLUME E FUMA)
Off. “Não tenho cárie não, doutor, nenhuma!”
Mas esse seu amorzinho vai sair de dentro de mim na marra! Ah, vai! Se não vai! (ARRANCA O PRÓPRIO DENTE. DÁ UM GRITO DE DOR E QUASE DESMAIA) Vai sair pela raiz! (ARRANCA O DENTE DA MULHER. ELA SIM, DESMAIA) Eu não me arrependo de nada! Levanta, pode ir embora. Não quero mais olhar pra você. (GUARDA OS INSTRUMENTOS) Então eu vou ser profissional. (ABRE A BOCA DA MULHER E FAZ O TRATAMENTO DE CANAL FEITO UM CARNICEIRO) Uma cárie aqui. Limpa, água, cospe. (GRITA) Cospe, filha da puta! Limpa, água, cospe. Cospe filha da puta! (PSICÓTICO) Limpa, água, cospe. Cospe, cospe, cospe! Filha da puta! Eu te amo, filha da puta! (Satisfeito) Isso… Tá vendo? Boazinha. Não vou te cobrar nada, não. Pode ficar tranqüila. Agora eu vou ficar aqui te olhando. Até o meu amor passar.
Off. “Não tenho cárie não, doutor, nenhuma!”
(CALMO E FUMANDO) Vou passar um café. Até o meu amor passar. Porque ele vai passar, sim. Claro que vai. (TENTA ENFORCAR-SE COM UM ROLO DE FIO DENTAL) Eu matei o amor.
FIM
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Para encerrar a semana em homenagem às mulheres, um trecho de meu próximo texto a ser encenado! Por enquanto, não posso divulgar muito além disso.
NOIVA EM FÚRIA
A noiva acabou de invadir uma rádio armada.
Luisa senta-se na mesa da rádio e ainda está se habituando com o equipamento. É uma mulher muito cuidadosa, organizada e caprichosa. Está descobrindo a rádio e ainda mantém uma relação muito “aberta” com os ouvintes, especialmente sobre sua vida pessoal.
LUISA (COLOCA OS FONES DE OUVIDO, GUARDA A ARMA E PEGA O MICROFONE) Alô, alô, alô. Testando. Tes-tan-do. (FALANDO SOZINHA) Será que a rádio tá no ar? (OLHA A PLAQUETA “NO AR” DESLIGADA. PENSAMENTO ALTO SOBRE A MESA) Faz tanto tempo que eu não mexo numa mesa dessas… (TOCA O CELULAR. LUISA OLHA O NÚMERO E NÃO ATENDE. PERCEBE-SE QUE ELA ESTÁ BASTANTE NERVOSA. APERTA UM BOTÃO NA MESA E A PLAQUETA “NO AR” ACENDE) Alô!? Oi?! Alguém está me ouvindo? É… bem… devem estar. (RESPIRA FUNDO E TENTA MANTER A CALMA) Prezados ouvintes… (ESCOLHENDO AS PALAVRAS)…meu nome é Luisa e no programa desta sexta-feira eu estou substituindo o saudoso locutor… (PROCURANDO ALGUM PAPEL NA MESA COM O NOME DO LOCUTOR) …o locutor…., o grande locutor Ubiratam Linhares. O Ubiratam teve um pequeno imprevisto, ele está de férias, e dessa vez ele não vai poder estar junto de vocês, mas para os fãs… (APERTA UM BOTÃO SEM QUERER E SAI DO AR. PÂNICO POR ALGUNS SEGUNDOS E ENTRA “NO AR” DE NOVO) Como eu estava explican… (DESLIGA DE NOVO) Não acredito, que merda! Alô! Alô! (VOLTA “NO AR”) Desculpem, foi um probleminha na torre de transmissão, mas já está resolvido. É… bem… (JOGA UMA MÚSICA NO AR SEM QUERER. “ME APAIXONEI PELA PESSOA ERRADA”, EXALTASAMBA. DESESPERO)
“Eu não tenho culpa de estar te amando
De ficar pensando em você toda hora
Não entendo porque deixei acontecer
E isso tudo me apavora…”
(O CELULAR TOCA) Cacete! (ATENDE PUTA) Magda, só um minuto, eu já ligo pra você. Não me liga agora, não. Eu tô enrolada. (DESLIGA)
“…Eu me apaixonei pela pessoa errada
ninguém sabe o quanto q’eu estou sofrendo
Sempre que eu vejo ele do seu lado
morro de ciúmes, tô enlouquecendo…”
(TENTANDO OPERAR A MESA. DIFICULDADE PARA TIRAR A MÚSICA DO AR. PEGA O MICROFONE E DESABAFA) Olha só, gente… Eu não sou locutora e não estou substituindo o Ubiratam porra nenhuma. Como eu falei pra vocês, eu me chamo Luisa e… a verdade é que eu acabei de invadir a rádio. Na real, o Ubiratam e os outros funcionários estão amordaçados dentro da sala de edição e se tudo sair do jeito que eu quero ninguém vai se machucar. (RELAXA UM POUCO) Prezados pais de família e, especialmente, as mulheres ouvintes da rádio… (PROCURA O NÚMERO DA ESTAÇÃO) …da rádio 86,5 FM. Hoje é o dia do meu casamento e eu descobri que estou sendo traída a dois meses. Pois é. Não pensem que está sendo fácil pra mim admitir isso ao vivo e expor a minha intimidade desse jeito, mas é a pura verdade. Eu tô aqui na rádio, vestida de noiva, com a cerimônia pronta, a festa e a viagem de lua-de-mel pagas e tô sem um noivo. Eu sou uma moça de família, detesto violência mas eu não aceito ser feita de palhaça. É evidente que eu não vou casar com um cara que é infiel. Quero deixar claro que não é só pela infidelidade, porque isso pode acontecer com todo mundo, mas pelo Ricardo ser mentiroso, dissimulado e mal-caráter. Pela frieza que ele me enganou esse tempo todo! E pela minha burrice também. Eu só não me divorcio de mim mesma porque é impossível. Mas como disse a minha tia, ainda bem que eu descobri antes de casar. Poderia ser pior: já pensou, descobrir no dia seguinte do casamento? Só por isso, por um motivo nobre e legítimo, eu decidi invadir a rádio: pra conseguir um marido. Eu acredito que assim como eu, infelizmente, a nossa cidade deve estar cheia de desiludidos e corações partidos em busca da sua alma gêmea. E como já vimos que o romantismo não leva a lugar nenhum, né minha gente?, estou tentando ser racional e prática. Vocês podem me julgar e achar que invadir uma rádio é um ato de desespero, mas não é. Eu passei horas refletindo sobre qual era a melhor decisão. Vou aproveitar pra agradecer a minha Tia Graça, que foi um anjo. Se não fosse ela, eu teria feito uma loucura. (PEQUENO SILÊNCIO) Vocês me entendem? (COMO SE LUISA ESPERASSE A RESPOSTA QUE NÃO VEIO) Sensação esquisita essa, de ser ouvida por um monte de pessoas, falar, falar, falar e ninguém responder. Tem alguém aí perdido nesse mundão me ouvindo? Uma cidade com milhões de habitantes e eu me sentindo completamente sozinha. (CURTE UM POUCO O SILÊNCIO DA RÁDIO) Ah! Claro! O telefone aqui da rádio é… (PROCURANDO UM LUGAR COM A INFORMAÇÃO) É… (LEVANTA E VAI FALAR COM UM DOS REFÉNS. GROSSA) Qual o telefone daqui? 2224.2012. (CAMINHA ATÉ A MESA MENTALIZANDO) 2-2-2-4.20… (ESQUECE O NÚMERO E CORRE ATÉ OS REFÉNS. RETORNA AO MICROFONE) 2224.2012. Dois, dois, dois quatro, vinte, doze. Guardou? Eu também. (ÁGIL. LUISA TEM URGÊNCIA) Se você é um homem moderno e topa essa aventura, ligue pra cá. Mas ligue rápido, por favor, porque já são 19h10 e meu casamento está marcado para as vinte horas. Claro que como a noiva, eu tenho direito de atrasar um pouquinho, mas o tempo tá correndo. Tenho no máximo cinquenta minutos. (TOCA O CELULAR) Oi, Magda, eu esqueci de ligar pra você. Perdão. Eu sei, Magda, mas com certeza você não imagina onde eu tô. No salão, nada! Calma, eu tô pronta, tô pronta. Coloque os bem-casados na ordem que eu te falei. (TOCA O TELEFONE DA RÁDIO) Peraê, Magda, estão me ligando na outra linha. Fica aí. (ATENDE O OUTRO TEL) Alô. Oi? Plantão agora? Mas… é… só um minuto. (COM MAGDA) Oi, Magda, taí? Pois é, o DJ largou. Ele é amigo do Ricardo, ia tocar de favor pra gente hoje à noite e abandonou o barco. (SEGURANDO O CHORO) Depois eu te explico. A minha mãe taí perto de você? Deixa eu falar com ela, por favor. (A MÃE ATENDE) Mãe? Tá me ouvindo, mãe? (DESABA NO CHORO) Ai, mãe, eu fiz uma merda! Mil vezes pior. Eu invadi uma rádio armada, rendi todo mundo e agora tô no ar… tô ao vivo! (SE DÁ CONTA) Meu Deus, eu tô ar! Fica aí, mãe! (OUVINTES) Alô, alô, alô! Eu já vou colocar uma música pra vocês. A minha mãe está na linha. (VOLTA PARA O TEL) Mãe, taí? (PAI ATENDE) Oi, pai! Calma! Deixa eu falar com a mamãe e depois ela explica tudo pro senhor direitinho. Ai, pai, dá água com açúcar pra ela! (TIA GRAÇA ATENDE) Oi, Tia! A mãe tá passando mal? Ai, meu Deus, eu ainda vou ser presa! Explica aí pra eles, tia. Ué! Explica que foi você quem roubou a arma do vovô e sedou o Ricardo com um bem-casado, mas não conta pra eles aonde é o cativeiro de jeito nenhum! (EXALTADA) Eu não sou nenhum monstro! Tanto político corrupto solto, a polícia vai prender a mim, uma cidadã de bem que paga todas as contas em dia? Eu processo a polícia e o padre! Tá, tia, daqui a pouco eu ligo pra senhora. Explica aí pra Magda sobre o DJ. É. Obrigada, nem sei como te agradecer. (LUISA VOLTA PARA O MICROFONE) Você está satisfeito, Ricardo? Percebe o tamanho do estrago que a sua brincadeira fez? Como é que eu fui cair no seu papinho…? Eu que sempre me orgulhei tanto de ser a primeira aluna da turma, capitã de bandeira, líder de C.A., oradora na formatura, taí. Fui cair no maior clichê de todos. (CONCLUSIVA) Eu sou um clichê.
EM BREVE NUM TEATRO PERTO DE VOCÊ!
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Trecho de uma peça inacabada! Primeiras cenas escritas em janeiro de 2008
SUFOCO
Um sufocante conjugado em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro. O espaço é mínimo. Rita disputa cada metro quadrado com um piano antigo e imponente. Parece que acabou de mudar-se ou que está de partida. Não se sabe ao certo. Muitos de seus pertences estão encaixotados por causa do ambiente apertado.
Verão de 2010.
(TOCA O DESPERTADOR. RITA DORME SOBRE O PIANO E ACORDA DISFARÇANDO O MAU HUMOR) Bom jour tristesse! Outro dia maravilhoso. (OLHA O HORÁRIO) 11 horas da manhã! Eu não acredito, essa merda só pode estar com defeito. Não pode ser tão cedo, eu acabei de deitar! (DEPRESSIVA) Não… Não… (ABRE UM SORRISO E PEGA UMA CAIXA DE REMÉDIOS AO LADO DO PIANO. CONVERSA ABERTAMENTE COM O PÚBLICO) Eu faço isso de propósito. Toda manhã é assim, eu tenho aquele tempinho de achar que é o fim do mundo por ter dormido pouco e logo em seguida descobrir que eu mesma adiantei o relógio 20 minutos. Na verdade ainda são 10h40 da manhã, minha gente! (TOMANDO REMÉDIO) O tempo de tomar o meu remédio pra gastrite e voltar a dormir feliz. (COBRE A CABEÇA E DEIXA OS PÉS DE FORA. VOLTA A DORMIR. O CELULAR TOCA IMEDIATAMENTE) Ué? Quem será a essa hora? Eu não vou atender de jeito nenhum… (OLHA O NÚMERO NA BINA) Número oculto… Que esquisito… Primeiro vem aquela sensação de temor, porque faz parte dos meus 10 mandamentos “Nunca atenderás um número oculto”. Eu sempre acho que pode ser um assaltante, um tarado estuprador me ligando. (FECHA A CORTINA DA JANELA) Então eu não atendo a ligação e tento voltar a dormir morrendo de curiosidade: será que era um estuprador? Logo depois do medo, vem o arrependimento. E se fosse a grande oportunidade da minha vida? Será que a grande oportunidade da vida liga pro nosso celular? (CELULAR TOCA DE NOVO. MISTO DE MEDO E CURIOSIDADE. ATENDE GRITANDO) - Alô!!!? Eu atendo gritando. Porque é óbvio que eu não vou deixar a pessoa perceber que eu estou dormindo às 11h da manhã. Vão pensar que eu sou preguiçosa e eu perco o emprego. (T) Sim, porque as grandes oportunidades da vida são podem ser bons empregos. Ou alguém achou que eu tava falando de amor? Alô!!!? O segredo é atender como se estivesse no meio da Uruguaiana. – Não, eu não tava dormindo, não… Minha voz tá ruim, eu tô com um probleminha na garganta. Então, me fala! (DECEPCIONADA) Ah, é do consultório do D. Henry… Eu vou, sim. (PERDE A PACIÊNCIA) Escuta aqui minha filha, você não tem o que fazer, não? É claro que eu vou na consulta, se eu fui eu quem marquei! Precisa acordar os outros pra perguntar isso? Eu sei bem o que é, eu tenho uma tia espírita igualzinha. Você deve estar aí morrendo de sono, porque teve que acordar cedo pra pegar um trem, um metrô e um ônibus pra ir trabalhar… Gentinha invejosa da zona norte! (ORGULHOSA) Querida, sinto muito, mas eu não moro mais na Tijuca. Além de tudo você é uma péssima funcionária, porque seu cadastro está desatualizado. (ENCHE A BOCA PRA FALAR) Agora eu moro na zona sul. Ipanema não porque… ah, porque é óbvio demais. Eu até gosto, mas… é… muito quente. Ai, e o Leblon não dá, toda hora aparece em novela, muita exposição. Tô morando em Botafogo. É, Botafogo, sim… (INSULTADA DO OUTRO LADO DA LINHA) Bairro de passagem é a porra da favelinha da casa da sua vó! (DESLIGA) Bairro de passagem… (LIGA O RÁDIO. ACENDE UM CIGARRO)
O locutor em off fala diretamente com Rita, como se fosse sua consciência.
“Você, cara ouvinte, sai dessa cama! Apaga esse cigarro! Vai procurar um emprego sua vagabunda! Queima O segredo, larga a igreja, sai da terapia e vai trabalhar. Arruma essa casa que a depressão melhora! Depressão, minha senhora, é casa suja!” Mas como é que eu vou arrumar a casa com um piano desses aqui dentro? Não tenho espaço pra nada… Não posso botar um sofá, uma televisão, uma churrasqueira na sala se eu quisesse, qual o problema? E todo dia eu bato com meu dedo mindinho do pé nessa merda. (NUM IMPULSO DE ENERGIA) Não dá pra ficar refém de um piano.
Rio de Janeiro, aniversário de 1980.
Rita é uma criança de 8 anos. Entra com os olhos vedados, chapeuzinho e balão de gás. Off dos familiares.
“Parabéns pra você! Nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida! Pra Ritinha é tudo ou nada…”
(PÚBLICO) Isso era um profecia. Desde esse dia que eu vivo entre o tudo e o nada. “Então como é que é? Ra-tim-bum, Ritinha! Ritinha! Ritinha! Êeeee! Vai abrir o presente, menina!” (RITA ESTÁ DIANTE DE UM PIANO LINDO, AMARRADO POR UM LAÇO VERMELHO ENORME E COM BOMBONS EM SUAS TECLAS) Aquele ano foi uma merda. Eu tinha engordado de uma hora pra outra e todos os meninos implicavam comigo. O único que era meu amigo era o Alfredinho, que também era gordinho e ficava no recreio dividindo a merenda comigo. Nós dois fomos apelidados de ursinhos carinhosos. “Ursinho carinhoso é a vaca da tua mãe, desgraçado!” Eu já era invocada naquela época. “Alfredinho, você não tá vendo que eles estão te implicando? Bate neles quando eles te chamarem assim!”. Por outro lado, pra entrar no seleto grupo das meninas era mais fácil. Só que tinha uma condição, uma espécie de pré-requisito: ter uma casa da Barbie. Ou, pelo menos, o carro da Barbie, a lanchonete da Barbie, o parque da Barbie… Hoje estão todas aí, umas capitalistas escrotas. Eu passei o ano inteirinho rezando antes de dormir pedindo a maldita casa da Barbie de aniversário. (ABRE OS OLHOS. VÊ O PIANO E SE DECEPCIONA) Mas eu ganhei um piano. (FALSA ALEGRIA) Que presente lindo! (PÚBLICO) Foi aí que eu deixei de acreditar em Deus. (OFF DOS PARENTES) “Olha que piano lindo, Ritinha!”. Criança, eu comi os bombons e deixei o piano de lado. Depois eu não entendia porque tava gorda… Não demorou muito, eu descobri que o piano tinha sido deixado de herança pela minha vó. Mas como ninguém queria ficar com ele, “porque eu não tenho espaço em casa”, mas também não queriam se desfazer, “põe lá no quarto da Ritinha, ué!”. Adoro quem fala “ué!”. Já reparou o caráter de quem fala “ué”? “Eu falei que não era pra enfiar a cabeça na jaula do leão, ué!”, “Ué, você não foi viajar, meu bem?”. A minha família era tão ignorante, que ninguém ali fazia idéia que o piano valia uma fortuna. Nem eu. Quando descobri que estava rica, eu fiz as pazes com Deus. Minha vó era fofa. Naquela época eu morava perto da zona. Até pra ir à feira eu tinha que passar pela zona. “Olha pra lá”, dizia minha vó tapando minha cara com um pé de alface. (SAPECA. RINDO) Mas bem que ela olhava pra ver se tinha algum conhecido pulando a cerca. (NOSTÁLGICA) Que saudade da minha vó… Amém. O piano ficou jogado no meu quarto até o dia que eu decidi arriscar umas notas. (ARRISCA UMAS NOTAS NO PIANO) Eu era um prodígio. Depois do primeiro acorde, uma sinfonia. Foi um susto. Minha mãe tava indo no quarto levar um xícara de leite e derramou tudo no vestido. “Vem aqui, Jorge! Corre! Vai lá chamar a Norma pra benzer nossa filha, que eu acho que ela tá possuída!” A cidade inteira parou pra ver. Ou melhor, pra ouvir. Era gente que não acabava mais debruçada na janela do meu quarto. Os meninos jogavam flores e cartinhas. Eu, claro, fazia pouco caso: – Vai ter que limpar, hein! Aqui não tem empregada, não! Meu primeiro sustenido foi quase o primeiro beijo. Mas como eu só tocava as mesmas músicas, com o tempo os meninos – ao invés de flores – atiravam pedras. (LEVA UMA PEDRADA NA TESTA) Minha mãe me matriculou na aula de piano. Eu não tinha paciência, era preguiçosa.
Rita sentada no piano inquieta. Fala com a professora.
Pode fazer xixi? (EXAGERADA) Eu tô morreeeendo de sede, acho que vou desmaiar. (FAZENDO MANHA) Não quero… Não… Deixa eu tocar outra música… Você não sabe ensinar direito! (SILÊNCIO) Vamos estudar teoria? Tô sentindo falta de teoria. Pode falar, a minha mãe não me põe de castigo. Você é muito chata, vem me dar beijo com esse suadinho no bigode, eu tenho nojo.
Aula de piano
Entra a professora de piano. É uma mistura de carrasca da idade média com alguma evangélica radical. Usa um chicote, um tamanco pesado e um leque.
(PROFESSORA) Calor… Abre a janela, minha filha. Eu não subo de elevador nem morta, que eu morro de medo de ficar presa. Tô suando muito, minha nossa senhora… (BEBE ÁGUA) Cadê o caderno?, que eu vou corrigir. (DECEPÇÃO) Não fez o exercício? (SUANDO MUITO. LIMPA AS MÃOS NA SAIA) Vamos fazer agora. Toca que eu te ajudo. Eu vou com você. (ACOMPANHA O COMPASSO BATENDO O TAMANCO NO CHÃO) Liga o ventilador, tá quente aqui. Não quer tocar? Vou falar pra tua mãe, ela vai te botar de castigo. Vamos! (BATE NO PIANO) Toque! (AGRESSIVA) Toque! Vamos! (RECOLHE OS CADERNOS DE RITA) Isso é pecado, pelo amor de deus, você não aproveita as oportunidades. (MUITO IRRITADA) Mas eu já falei, tem que seguir a ordem do livro. Não… Não pode! Eu não estou gritando, eu estou com calor. Tem que tocar na ordem, vai aos poucos. Não dá pra tocar primeiro a 8, depois a 3, depois a 5. Eu tô ganhando e não posso ensinar. (SENTA NO PIANO) Dá licença… É assim, ó! (TOCA) Tá vendo? Ai, tá muito quente… (A PROFESSORA COMEÇA A PASSAR MAL, MAS NÃO PARA DE TOCAR. TRANSFERE TODA A RAIVA E TENSÃO PARA A MÚSICA) Um dia… um dia você ainda vai precisar muito desse piano. (PASSANDO MAL) Traz outro copo d´água, por favor. Não deixa de tocar, menina… (A PROFESSORA TEM UM ATAQUE DO CORAÇÃO E MORRE).
CONTINUA?
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postado em 20/05/2010 às 7:04 am |
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Cena escrita para Luisa Olinto e dirigida por Fernanda Areias no evento 7Pecados na UFRJ. Em seguida, montada por Julia Marini com direção de Vinicius Arneiro — onde ganhamos os festivais de Cabo Frio (2007) e Niterói (2008) recebendo indicações de melhor texto, atriz e diretor.
RELICÁRIO
A cena acontece num galpão abandonado. Enquanto o público entra a mulher confere uma lista enorme de itens, todos eles espalhados pelo local em malas e caixotes. A ideia a passar é que a personagem é metódica e organizada.
(CONFERINDO A LISTA) 251 caixas de sabonete, 135 jogos de talheres, 92 capinhas de celular… Hum…. Chico, Bethânia, Gal, Calypso… Calypso? Só falta conferir aquela outra caixa ali… Estou exausta. (CONFERINDO) 1.325 agulhas de prata, 43.989 pulseiras, 1.657.345 fitinhas do Senhor de Bonfim… Ué? (REFAZ AS CONTAS) 340, 341, 342, 343, 344… Tá faltando uma fitinha. (LEVE DESESPERO) 341, 342, 343… (DESESPERADA. REVIRA AS COISAS DESCONTROLADA) Eu não acredito! Deve estar em algum lugar, não pode ser… Cadê a porra da fitinha?! (ABRE UMA DAS CAIXAS) Mamãe, a senhora pegou a minha fitinha? A senhora me conhece, sabe que eu não gosto desse tipo de brincadeira… (ENCONTRA A FITA. DOCE) Mamãe, eu não posso com a senhora! Querendo me assustar, hein! Ai… que alívio! Já pensou eu ter que contar tudo de novo? Eu prometo que se sobrar alguma eu empresto, empresto uma dessas pra senhora. (VÊ UM LIVRO FORA DA CAIXA. ANTES DE GUARDÁ-LO LÊ UMA CITAÇÃO) Pensa numa pergunta mamãe. Diz aqui “A avareza é a chave da pobreza.” Eu adoro provérbio.
(MELANCÓLICA) Mamãe, acho que eu nunca tive oportunidade de dizer isso, mas eu aprendi muito com a senhora. A senhora é uma mulher forte, tem garra! É sim, mamãe… Não, é você… É você… Deixa de ser boba mamãe, só estamos nós duas aqui, não precisa ser humilde, não. A senhora pode matar a minha curiosidade? É que a tia Consuelo… Calma, ela não fez fofoca nenhuma, deixa eu falar primeiro… (SAPECA) Eu ri tanto com a tia Consuelo, porque ela imita a senhora direitinho, né? Ela contou que a senhora só… só… como eu vou dizer… ah, que a senhora só transou com o pai uma única vez na vida e engravidou de mim de primeira, é verdade? Que nunca mais vocês tiveram relação… Como a senhora conseguiu? A tia contou que a senhora morria de medo de desagradar a Deus e que até engravidar nunca tinha cometido nenhum pecado. Que seguia à risca todos os mandamentos e vivia com o terço na mão… A tia falou que só depois de 7 anos de casada é que a senhora decidiu se entregar ao pai. É verdade que o padre foi lá em casa pra benzer a primeira trepa de vocês? (RINDO) Mamãe! A senhora é impossível! Não posso com a senhora… (SÉRIA) É, tem razão… Além de religiosa, a senhora é intuitiva. A tia Consuelo mesmo… ela falou que depois da primeira vez que a senhora deu, porque a senhora deu, a senhora ficou andando pelos cantos da casa chorando: “Eu sinto, eu sinto que se eu me entregar ao meu marido, eu vou perder alguma coisa.”
A senhora só queria ser limpa, ser íntegra, né? Mas eu confesso que fiquei um pouquinho chateada com essa história… Não muito, só um pouquinho. É que eu pensei que a senhora gostava de mim, que tava ganhando alguma coisa com uma filha. Sabe o que a tia Consuelo disse? Que a senhora era muito pretensiosa, queria ser mais pura que a Virgem Maria! Na certa a senhora deu, porque a senhora deu, e depois ficou se achando a mais esperta da humanidade: “Eu devia ter seguido a minha intuição, o meu sexto sentido…. Se eu der pra ele, eu perco alguma coisa. Tenho que guardar pra mim.” (IRA) Perder, perder, perder… qual o problema de perder o cabaço? Eu concordo com a tia Consuelo, a senhora é muito gananciosa. Concordo, sim… Ué, eu concordo, vou mentir? Não, não… é, é sim… Não altera o tom de voz comigo! Não grita, mamãe! Deixa eu falar. (PSICÓTICA) Cala essa boca e me ouve! Agora eu vou falar, que tá tudo engasgado aqui. Não vou guardar isso só pra mim, não! A senhora além de gananciosa é burra, grossa, ignorante, alienadinha no seu mundinho pequenininho. Sabe o que a senhora é? Um diminutivo! (TIRA UMA BOMBA DE UMA DAS CAIXAS) E não adianta correr, não! A senhora pensou, no alto de sua pretensão, que eu ia destruir a minha vida assim? Não bastou eu ter virado isso? Não está satisfeita? Eu sofri muito, sabia? Já imaginou o que é nascer se sentindo uma ladra roubando da própria mãe a única coisa que ela não queria dar pra ninguém? Mas só hoje eu entendi a minha missão. Fui usada como instrumento de Deus pra castigar a senhora. (SAUDOSISTA) Lembra do dia em que eu nasci? Eu era lindo, o bebê mais gordinho da maternidade. A senhora teve uma gravidez tranquila, parto normal… E eu não desperdicei a minha primeira oportunidade. Os médicos cortaram o cordão umbilical, deram um tapa na minha bunda e esperaram o silêncio ser quebrado por um berro. Só que eu não chorei! Eu guardei o choro! Eu nasci desse jeito, guardando. Eu era o acúmulo de alguma coisa, um silêncio que no fundo só era uma enorme vontade de gritar.
No início eram as pequenas coisas que eu guardava. A metade de um chiclete, o dinheiro da merenda, os cadernos de escola, meu primeiro dente de leite… Só que tinha um problema: eu guardava e depois esquecia. Não conseguia guardar na memória. Foi quando resolvi anotar, tomar nota de tudo o que eu tinha. Fiz da minha vida um grande banco de dados. Os anos passaram e a minha obsessão agravou. Porque aí eu já guardava as coisas grandes, as maiores. Guardava tudo que me falavam, tudo que me prometiam. “Amanhã eu te ligo, hein!”. Eu guardava aquilo. Criava expectativa e ficava esperando o dia inteirinho, plantada ao lado do telefone, esperando o sujeito me ligar. Sofri tanto, porque nunca ligavam. (FILOSÓFICA) As pessoas dizem as coisas assim, sem pensar, né? Foi quando eu dei conta que eu estava me transformando numa pessoa rancorosa. Eu era jovem, bonita, tinha uma vida próspera pela frente. Então decidi sair de casa. Foi um inferno! Tive que fazer a viagem em 15 vezes, porque tudo que eu tinha não cabia num caminhão só. Pra senhora ter uma idéia, foram 500 quilos só de papel… Eu não conseguia me desfazer das coisas. E não era um apego gratuito… era preocupação. A senhora não sabe, mas adivinha onde eu arranjava dinheiro pra pagar o aluguel? Eu não era puta, não. Há! Imagina que eu ia dar pra alguém. Arrumei meu primeiro emprego num supermercado. Na sessão de guarda-volumes. Até aquele dia, antes de começar no trabalho, a minha experiência era muito individual sabe? Eu guardava apenas as minhas coisas. Só que aí eu descobri o prazer inigualável do coletivo, de guardar o que pertencia aos outros. E sempre, sempre anotando. Anotando tudo. O moço deixava a sacola de compras comigo e bastava ele virar as costas, pra eu abrir o embrulho e anotar tudo que tinha lá dentro. Com o tempo, eu me aperfeiçoei e criei desafios. Além de anotar, eu tirava alguns itens, pra ver se os donos sentiam falta. “Ei senhora, não tá esquecendo de nada?” E eu entregava aquele batom, aquele espelhinho, o comprimido de Novalgina esquecido dentro da bolsa.
Até o dia em que eu fui demitida e presa, acusada de furto. Eu não vou entrar em detalhes, mas lá na cadeia eu guardei essa vontade de me vingar da senhora… Foi a única coisa de valor que eu guardei na vida. (PEGA O LIVRO DE PROVÉRBIOS E A FITINHA) Toma, leva a fitinha de lembrança. Pra senhora depois não dizer que eu nunca te dei nada. Ah, deixa eu te contar um segredo, a senhora vai gostar. Sabe a tia Consuelo? Ela vai junto com a senhora. Ela tá dentro daquela outra caixa ali, ó. (ABRE A CAIXA) Tá confortável aí dentro dinda? Dá “Oi” pra mamãe! (PARA A OUTRA CAIXA) Mamãe, não seja mal-educada. Cumprimenta a tia Consuelo. Vai mamãe, faz uma pergunta, que eu vou ler um último provérbio pra gente. Fez? Diz aqui “Três mulheres podem guardar um segredo. Desde que duas estejam mortas”. (ALTERADA) Cala a boca! Não vem dizer que é pra eu me acalmar, não! A senhora pariu uma mulher-bomba! (GARGALHADA) Vai tudo pelos ares! O meu grande ato de desapego, minha demonstração de desprendimento, o meu foda-se pra humanidade! Uma bomba aqui, outra ali, mais uma acolá. Patati, patatá! A minha redenção! Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah! (A BOMBA EXPLODE)
FIM
Créditos da imagem: Alexandra Arakawa. Em cena, Julia Marini.
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