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O medo da Literatura

Desde 2009 estou trabalhando no meu primeiro romance. Leia bem, não estou diariamente escrevendo o livro há três anos. Como já mencionou Woody Allen, escrever não é só o ato da escrita. E às vezes passamos mais tempo pensando na ideia do que no próprio ato de transpô-la para o papel.

Nesses três anos de processo (e eu estou em 50% do livro, agora finalmente satisfeito com o conteúdo), tive intervalos de meses entre um bloco e outro. Porque sempre que eu relia, eu não achava bom. Ou considerava algumas partes legais, mas sentia alguma coisa truncada: ora o tom, ora a estrutura.

No teatro o processo é diferente. Eu detesto deixar uma peça escrita pela metade, então quando aperto o play num trabalho costumo ir até o fim. Isso me ajuda a entrar no clima, pegar o ritmo, a respiração do texto e o tom dos personagens. Parar uma peça na metade e voltar a escrevê-la meses depois é meio doloroso pra mim. É difícil porque parece que me esvaziei daqueles sentimentos.

Acabei de ler uma frase agora do Caio Fernando Abreu que ilustra bem isso: “Para provar outros chás, é preciso esvaziar a xícara”. Primeiro eu pensei nos relacionamentos amorosos, é verdade. Mas serve para o processo de escrita – pelo menos no meu caso.

A conclusão que eu cheguei até agora é que a Literatura me assusta. A palavra “literatura”. Se tivesse que criar a imagem de uma pessoa a partir dela, certamente não seria alguém usando all star e meia colorida. Seria um homem careta, com uma gravata empoeirada, já com alguma idade e sem muita vontade de rir. (que injustiça, hein Joshua Ferris!)

Eu sou da escola do palco. A experiência que tive durante a minha formação como diretor teatral me fez ter uma relação desapegada com o texto. E isso porque eu sou muito apegado! Mas quando se trabalha no teatro você está habituado a compreender que a palavra que está no papel é somente o primeiro passo de um longo processo e que até ganhar vida, muitos outros criadores irão se apossar dela. Por isso, de certa forma, o autor é levado a dessacralizar de maneira saudável a importância do texto. Em alguma instância, e esse é o lado mais benéfico do teatro para mim, ele encoraja qualquer um a escrever. E nós bem sabemos como é difícil expor o que se escreve. O teatro é uma exposição pública, radical e isso fortalece o autor.

A Literatura é muito mais pomposa e cheia de formalidades. Desconfio até que a maioria dos romancistas sequer tenham interesse em estimular novos autores. Pelo simples fato de você chegar em qualquer livraria e encontrar inúmeros Manuais de Roteiro e dificilmente achar algum “Guia da Criação do Romance” (eu nunca vi!), isso já demonstra o lugar que a Literatura se coloca. Ou, sendo mais maldoso, o lugar em que colocam o roteiro. “Literatura não se ensina, roteiros se ensinam. Literatura é talento e vocação, roteiros são fórmulas. O texto literário é arte, o roteiro cinematográfico não.”

Será um fenômeno específico do romance? Vejo tanta gente nova escrevendo teatro, lançando livros de contos e poesias. Literatura, não. A gente parece sempre carregar a obrigação de escrever uma obra-prima, de ser visto como Clarice Lispector, Veríssimo e Caio Fernando Abreu – para citar os top3 da web.

O reflexo disso é que não consigo terminar o meu livro. Porque nunca acho suficientemente Literatura para ser publicado. Aí, se der brecha para questões que não tem resposta como “Afinal, o que é Literatura”, então é que o processo criativo estanca. Ora, Literatura eu não sei o que é. Nem me atrevo a dizer. Mas, dentro das minhas referências, saberia citar quem e o porquê são os meus escritores favoritos. E, afinal, eu sei por que escrevo. Porque nesse momento da vida eu preciso contar esta história.

ps. talvez me contradizendo. Ontem a vó Heliodora escreveu: “Pena que a literatura seja retalhada em tuites, pois isso causa a falsa impressão que qualquer idiota é capaz de escrever coisas geniais.”

ps2. perdão, todo dia eu desaprendo o uso dos porquês.

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O elefante branco – O primeiro capítulo

Leitores que me acompanham… desde 2009 me dedico à escrita do meu primeiro romance. Como falo de sexualidade, e o protagonista é um jovem que se confronta com o fato de ser gay, me senti instigado a escrever algo sobre isso. Fiquei pensando que adoraria ter lido algo assim quando era adolescente. Já que não li e sou abusado, decidi eu mesmo escrever.

A Literatura, obviamente, é bem diferente do teatro. No livro eu não tenho o respaldo do ator e a palavra não é um mero meio a favor da cena. Ela é a própria cena. Ela é tudo que o leitor tem para se amparar – além de sua própria imaginação, é claro. Por isso, vocês podem imaginar que escrever um romance não tem sido uma tarefa fácil pra mim. É difícil pra caramba!

E o mais importante de tudo… de 2009 pra cá, muita coisa já aconteceu em relação ao debate sobre a homossexualidade. E me dei conta, no meio do processo, que estava com uma abordagem antiquada em relação ao assunto. Daí fiquei quase um ano parado e estou voltando ao livro, reescrevendo tudo. Decidi compartilhar com vocês o prólogo de “O elefante branco”. Pode ser que até o lançamento já não seja mais nada disso… enfim, resolvi abrir um pouco o processo de criação.

Prólogo
Romance com teor gay

Contei a Fernanda que finalmente publicaria meu livro. Ela deu um grito histérico e contagiante do outro lado da linha que percorreu as centenas de milhões de células de transmissão telefônicas, tocou meu tímpano e acelerou as batidas do meu coração. Tive que abafar o som tapando o aparelho com a palma das mãos sobre a boca, tamanho o constrangimento com a senhora que estava ao meu lado, com expressão curiosa. Nós percebemos quem é realmente importante na nossa vida quando o primeiro impulso após receber uma boa notícia é ligar para dividir a novidade. Assim acontece até com os vilões de novela mais ordinários – nenhuma maldade é tão saborosa se não houver um cúmplice com quem brindar no final do capítulo. Não significa que ao lançar este romance eu esteja me sentindo um vilão, mas sua publicação é uma espécie de vingança contra todo o dramalhão mexicano que a minha vida se transformou desde o dia em que conheci o Miguel.

- Você manteve o meu nome real? – foi a primeira pergunta dela.

Quando comecei a escrever o livro, a única preocupação da Nanda era que fosse citada na história – já que havia tido uma participação decisiva na vida real. Com o tempo, além de me questionar toda semana se ela tinha mais falas que o Tiago e eu explicasse que um livro, além de não ser uma peça de teatro, também não era uma competição para descobrir quem era melhor amigo, Fernanda um dia revelou que o que lhe atormentava era não saber se eu usaria o nome dela de verdade. Como se ela tivesse um nome de mentira. (Ok, ela tem, na conta fake no MSN). Tive que jurar, com as mãos estendidas via webcam, que era mesmo o nome dela. Se com toda a tecnologia já fosse possível enviar uma gota de sangue por e-mail, assim seria a minha promessa. Ela dizia que tinha pavor de um dia virar personagem, que a única dignidade que lhe restara com trinta anos era ser uma mulher de carne e osso. Ou, ela reiterava em cima de uma balança de farmácia, “muito mais carne e nenhum vestígio de osso”.

- Posso colocar uma frase no livro? – Fernanda implorava.
- O meu romance é uma coisa séria. Não é um abaixo-assinado para todo mundo sair rubricando ou um caderno de condomínio para os amigos deixarem seus depoimentos.
- Escreva lá – ela ignorava: “Os gays são homens superiores. São apenas inferiores às mulheres, porque (ainda) não podem ser mães. Caso contrário, os gays seriam imbatíveis.”

A Fernanda é a pessoa mais gay que eu conheço. Mais até do que eu e o Tiago juntos. Eu pensei em dedicar o primeiro capítulo do livro para refletir um pouco sobre o que é ser gay, mas depois de reler tudo percebi que ela é a melhor definição ambulante para o termo. Se eu fosse mulher eu gostaria de ser a Fernanda. E se eu fosse drag queen também.
Esse livro foi publicado com a grana que ganhei no meu primeiro trabalho profissional. Eu poderia ter feito uma viagem para o exterior – para a Argentina que fosse, não precisava nem ser à Europa – mas optei por investir meu dinheiro numa viagem interna na imensidão e no caos dos meus sentimentos, com uma passagem apenas de ida rumo às memórias mais felizes e desgraçadas, como quem anda no trilho do trem rumo ao túnel escuro que esconde uma locomotiva acelerada de lembranças que expõe nossas fraquezas e revela todos os nossos defeitos.

- Você vai gastar essa grana para escrever um livro triste?! – atacou Tiago.

Este livro não é alegre nem triste.

- Mas no Brasil ninguém lê! – , ele rebateu a minha filosofia barata atacando os poucos leitores brasileiros. – Se for para lançar um livro, que seja sobre vampiros! Pelo menos você fica rico. – e depois de refletir um pouco sobre a ideia oportunista, concluiu: – Apesar que se o Miguel não era um vampiro, ele era um sanguessuga de energia da vida real.

O Tiago é ator e está numa peça com “teor gay” segundo a diretora dele. “Peça com teor gay.” Eu fui assistir ao ensaio geral, onde a caminho do teatro ele me dizia em pânico que ainda não tinha um personagem construído e que a diretora relutava em lhe passar as marcas. O elenco, formado por outros três atores que mais pareciam ter estudado a nobre arte da atuação com doses pesadas de anabolizante em alguma academia suja da cidade, estavam compenetrados no palco com poucos figurinos. Um deles estava de sunga. O cartaz de gosto duvidoso apresentava os quatro atores sem camisa como se estivessem numa boate e com máscaras – o Tiago me contou que como conhecia o programador visual, insistiu para que ele disfarçasse o rosto de todos com uma máscara – e uma tarja fluorescente bem abaixo do título dizendo: “O primeiro beijo gay de verdade dos palcos cariocas!”. Fiquei me perguntando o que seria um beijo gay de mentira, talvez sem a língua, mas Tiago disse que era uma jogada de marketing da produção para atrair mais público.
Por que toda pessoa incompetente se considera capaz de ser publicitária?

Sentei na primeira fileira, a diretora deu esporro em toda a equipe, depois se emocionou ao fazer um discurso em círculo com os atores de mãos dadas e pediu, com garra, que eles fizessem aquela apresentação como se fosse a estreia, porque “aquelas pessoas que estão ali na plateia” – apontando para mim, a bilheteria e a mãe loura do ator louro – mereciam o melhor deles. - Se esquecer o texto, segue em frente, não para – disse a diretora.

Mal a cortina abriu, a primeira imagem do espetáculo era o Tiago nu, de costas, tomando banho. Aquela expressão popular “com a bunda virada pra Lua”, que significa sorte, no caso do Tiago havia se transformado em “com o cu virado pra plateia”, que naquele contexto representava o exato oposto, o mais triste azar para quem começa a sua carreira profissional nas mãos de gente oportunista. Tiago, com toda a cara de pau peculiar, era talentoso e carismático, conseguiu arrancar as poucas risadas daquela uma hora de tortura que seguiu no mais perfeito mal gosto, com atores errando texto, marcas e parando toda hora. Ao final da apresentação, bastante constrangida, a diretora pediu para que dessemos licença para ela se reunir com os atores – onde mais tarde diria que estavam todos péssimos – e eu não resisti:

- O que é uma peça com teor gay?
- Eu não sei… – ela se desconcertou com a minha pergunta inesperada. – Foi uma exigência da produção e a melhor ideia que eu tive foi abrir o espetáculo com a nudez do Tiago.
- Eu sou gay e achei uma cena de mal gosto – eu disse.
- Respeito a sua opinião, mas a arte é subjetiva – a diretora se defendeu como se falasse de um quadro de Van Gogh.
- Seguindo a sua lógica, uma peça com “teor hétero” pode ser feita num puteiro.

A mãe loura ficou chocada e engasgou ao dar um gole na água da garrafinha de plástico; o elenco arregalou os olhos e Tiago soltou uma gargalhada, como quem é demitido do emprego mas não perde a oportunidade de sair e debochar de seu chefe. Eu e Tiago fomos convidados a nos retirar do teatro. E no dia seguinte a peça estreou com outro ator…. pelo que soubemos, um ex-participante de reality show.

A função deste prólogo é preparar qualquer desavisado que não vou apelar para nudez ou cenas de sexo explícito para escrever um romance que, porventura, receba qualquer rótulo gay. Embora, se Literatura é a palavra, eu esteja me contradizendo já que abri o livro também com a bunda do Tiago. Mas foi apenas um descuido e efeito da minha falta de intimidade com a escrita. E para assumir logo a verdade, especialmente pela minha falta de intimidade com o sexo também. Se eu tivesse transado mais, é certo que os capítulos seriam bem mais picantes.

O meu irmão, dentro da sua mais profunda grosseria para demonstrar carinho, disse que Para um gay até que tu é um cara bem normal. (Talvez ele esperasse que eu fosse um mutante!). O Lucas tem razão, ser gay é normal. E não é uma questão de evolução da mentalidade do povo. Ou porque agora, mais do que nunca, o capitalismo descobriu que nós temos dinheiro para gastar e por isso o mercado exige que sejamos aceitos. Não é porque os gays são os personagens divertidos do núcleo cômico da sua novela. Ou porque um filme que retratou um romance entre dois cowboys foi indicado ao Oscar. Ou porque um gay foi campeão de votos no Big Brother Brasil. Ser gay também não é mais nova moda do próximo verão. Não é apenas uma bandeira que arrasta milhões nas passeatas e se tornou um evento milionário. Ser gay é normal porque as pessoas sentem desejos. E não querem se sentir culpadas por “respeitarem sua natureza”, como disse o Rick Martin. Ou então vão acabar no banco dos réus da sua própria consciência e machucando outros a sua volta, como foi o caso da minha tia, que depois de vinte e cinco anos de casada, descobriu dentro do armário das Casas Bahia não só o meu tio, como também o jovem amante dele das aulas de natação.

Como entender que descobrir-se gay não é nenhuma monstruosidade? São tantas descobertas na adolescência que eu perdi noites e noites de sono buscando decifrar o pesadelo que era me considerar normal e um dia, passar a ter consciência do terror que é ser ridicularizado como diferente.

O homem tem vocação para o drama. Uma mãe que perde o filho experimenta toda a dor da perda quando recebe pela primeira vez o impacto da notícia e depois, sempre que diz estar sofrendo porque seu filho faleceu, está sublinhando um estado de dor, está dramatizando.

Ser gay me tornou dramático.

Por que eu estou escrevendo “Como me tornei adulto”?

Para quem não sabe, estou escrevendo desde o ano passado meu primeiro romance. Eu, que começo a ganhar algum entendimento da escrita dramatúrgica, percebo como é um território misterioso e cheio de “regras” próprias este mundo da literatura. O tempo dramático é outro. A maneira como se conduz o leitor é diferente. Escrevo o livro desde outubro do ano passado  e tinha a pretensão de escrever uma primeira versão até o final de 2009. Não consegui. Na época me senti mal pela falta de disciplina e por ter interrompido um processo de escrita que, ao meu ver, para ganhar força, deve ser diário. Com as peças de teatro, não gosto de começar a escrevê-las e depois largá-las. Quando isso acontece – e eu evito ao máximo – me sinto esquisito, como se já não estivesse mais dentro daquele universo. E aí retomar qualquer texto inacabado é sempre um enorme sacrifício, pois preciso me “recolocar” dentro daquele mundo, dos própositos dos personagens, daquela energia de criação que treina o olhar a perceber tudo como se fosse um filtro da peça. Mas no caso de “Como me tornei adulto”, ficar semanas e até mesmo meses sem escrever tem sido incrível.

Assim como não foi uma tarefa fácil escrever a minha primeira peça de teatro (e hoje, quando a releio, percebo o tanto de inexperiência de forma nítida), eu sei que será inevitável passar por isso no livro. Desta forma, estou recorrendo ao distanciamento para ganhar uma clareza maior em relação ao livro e tentar não me apegar a nada. Talvez seja esse o maior pecado de quem começa a escrever, qualquer coisa que seja: o excesso de apego. Quando somos imaturos, acreditos que nossas ideias são geniais e não poderemos abandoná-las de forma alguma. E faz parte. Como também faz parte não ter medo de se expor. E a hora de escrever e publicar meu livro é agora. Estou disposto a me desnudar, estou feliz com o desafio.

Enquanto escrevo o livro, mantenho um diário paralelo onde escrevo o passo a passo da criação (da primeira ideia até o dia da publicação). O trecho deste diário de processo que vou publicar aqui é de 10 de outubro de 2009. Não vou cortar nada… vai na íntegra. Sempre tive em mente que gostaria de fazer do “Melancia” o meu espaço de troca sincera e honesta com os leitores e aqueles que acompanham meu trabalho. Então pode ser que nessa busca, por vezes eu deixe escapar um furo, um comentário infeliz ou algo que não precisava ser exposto publicamente. Mas é assim mesmo.

Por que eu estou escrevendo “Como me tornei adulto”?

Porque foi uma fase de transição tão forte e complexa na minha vida, que até hoje sinto a pressão dessas questões todas e muitas delas ainda não estão resolvidas. Eu estou escrevendo este livro para dialogar com outros jovens que também passam ou passaram por conflitos parecidos.

Eu escrevo porque gostaria que alguém tivesse escrito sobre isso quando eu era mais novo. Talvez tivesse me dado mais coragem para enfrentar as coisas ou dramatizar menos, sofrer menos e brincar mais. Porque, quem sabe, um livro destes pudesse ter caído nas mãos dos meus pais e eles entendido melhor o meu ponto de vista.

Eu escrevo “Como me tornei adulto” porque não sou militante da causa GLS, mas acredito que através de minha produção artística eu possa ser mais eficaz, pois acredito na força das palavras como uma forma de tocar o outro, o ser humano, de acessar emoções. Nós somos seres emotivos por natureza, somos movidos pelo amor. Eu não tenho a pretensão de mudar o mundo, mas tenho consciência que hoje é perfeitamente possível que uma obra bem escrita e amparada (dinheiro, estrutura, credibilidade) chegue num número cada vez maior de pessoas. Eu acredito no poder da internet, no poder do boca a boca, de cada leitor que irá divulgar o livro porque também se sentiu tocado de alguma forma. Eu tenho a pretensão de clarear um pouco as ideias de outros, desfazer nós.

Eu escrevo porque desejo um país melhor. Porque é uma questão urgente que precisa ser tratada de forma séria e sem esteriótipos, sempre prevalecendo o bom-senso, a alegria e o bom-humor. Escrevo porque desejo que este livro seja uma obra de referência no gênero, para que seja lembrado e citado, que seja traduzido em muitas linguas e veja nosso país ganhando territórios. Para que o livro vire filme e toque as pessoas ainda mais. Porque é importante a evolução de mentalidade, a abertura e a tolerância com o outro, a quebra de barreiras e enfrentamento de preconceitos que perpetuam ódio, ignorância e violência.

Porque eu desejo mudanças na Constituição do meu país. Porque será um passo muito importante para nosso desenvolvimento o casamento homossexual, o reconhecimento da homo-afetividade. A Espanha já deu um passo importante neste sentido e eu sei que um livro com grande repercussão pode ajudar.

Eu escrevo porque quero me sentir um cidadão ativo e consciente do papel político do meu trabalho. Escrevo também porque desejo abrir o mercado editorial, elevar a qualidade dos textos e abrir as editoras para a o investimento e publicação de novos autores. Por fim, eu escrevo para vender muito, ganhar dinheiro e pagar as minhas contas, para que assim possa me dedicar a outros projetos e sempre escrever mais, mais e mais.

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O que é ser adulto?

Em outubro do ano passado comecei a escrever meu primeiro romance e junto com ele veio a idéia de fazer um diário de processo, da primeira inspiração até a publicação. O argumento (e o nome) de Como me tornei adulto surgiu numa manhã de 2008, no quintal da minha casa em Petrópolis, já pensando num livro com temática gay – sobre a descoberta e relação de um menino com a sua sexualidade. Lembro também que tinha uma escaleta prévia na minha cabeça, com passagens que não poderiam faltar à história. Logo rascunhei uma sequência de capítulos, que foi muito útil mais tarde.

Abaixo, um trecho do diário:

O nome “Como me tornei adulto” é uma brincadeira com o nome do livro “Como me tornei estúpido” de Martin Page. Surgiu do desejo de contar uma história sobre esse período de passagem, a transição do mundo jovem para o mundo adulto, com todos os seus nós, dificuldades e problemas sob a ótica de um rapaz com seus vinte e poucos anos. As nossas questões mal-resolvidas que através de algum evento, traumático ou não, nos impele a mudar, nos obriga a crescer e amadurecer.

Por exemplo: uma garota que engravida aos 16 anos. Ter um filho a faz pular algumas fases e transformar-se em mulher; embora ainda tenha o espírito de menina. O que será que amadurece quando nos tornamos adultos? O que é ser adulto? É uma questão de idade, simplesmente, ou trata-se de uma mudança de postura perante a vida, um enfrentamento da realidade sem buscar refúgios e o colo dos pais? Ser adulto é ser dono de sua própria vida?

Alguns ficam adultos mais cedo, outros mais tarde. Quem brinca deixa de ser adulto? Será que somos eternas crianças, almas infantis em corpos grandes, em corpos que cresceram? E por que dizem que quando envelhecemos voltamos a ser crianças? Será que estamos livres das preocupações? Será que já passamos da fase de auto-afirmação e então podemos, novamente, brincar? São tantas perguntas… e tão complexas! Penso que nos tornamos adultos quando podemos arcar sozinhos com as nossas decisões e já temos a personalidade de tal modo constituída que nos tornamos preparados para fazermos nossas escolhas e, especialmente, sermos responsabilizados pelas consequências. Num mundo capitalista, ser adulto é pagar suas próprias contas.

E dentro de auto-afirmação, que coisas nós precisamos afirmar para nós mesmos e para a sociedade? O quanto e como pesa o olhar do outro sobre nós? Hoje, precisamos provar socialmente que existimos, que somos indíviduos capacitados e diferenciados, que se destacam em seu grupo social e de convívio. Este reconhecimento do outro vem através, principalmente, da função que exercemos na sociedade, a nossa “marca”. A profissão, desta forma, é uma importante definição para a auto-afirmação. Na fase de transição, quando estamos deixando de ser mero adolescentes, nos deparamos já com o primeiro importante passo neste sentido: prestar vestibular e escolher uma profissão. Junto com isso, uma escolha para alguns mais fácil e para outros menos, outras inúmeras mudanças: a mudança de cidade, a busca por novos amigos, a conquista de um território desconhecido, onde não existe casa, não existem amigos, não existe nenhum referencial. Estamos muito pouco protegidos e sem coisas que nos cercam que nos dão reconhecimento. Quem chega precisa conquistar tudo.

Quando um jovem muda de cidade, ele se depara com os benefícios de não ser “ninguém” ou ser “mais um” na cidade grande, então para muitos este é um elemento facilitador para viver novas experiências, especialmente sexuais. Soma-se a esta liberdade uma certa crueldade com a pureza e ingenudade de quem chega aqui motivado por sonhos e ideais. Temos possibilidade de manter ou quebrar o jogo de aparências, embora não estejamos jamais livres das máscaras sociais, dos personagens que exercemos em diferentes circunstâncias da vida: o filho, o amigo, o namorado, o chefe, o consumidor, o profissional. Para cada situação, nos revestimos de atitudes próprias.

Além disso, acreditamos que no curso universitário escolhido o jovem terá possibilidade de conviver com pessoas mais parecidas com ele, que respiram as mesmas questões, interessam-se pelas mesmas coisas e que estão em situações parecidas. Encontramos no outro uma segurança, um porto, um abrigo. Diferenças de educação e, principalmente, as diferentes classes sociais, ajudam a agregrar ou separar os jovens, a formar sub-grupos dentro do próprio grupo (que é o nixo maior).

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