M.A. Melancóolicos Anônimos #reunião001
Querido leitor,
Para um melhor aproveitamento deste post, escolha uma música bem melancólica de fundo enquanto você lê.
Companheiro: Caio
Profissão: Técnico de computação
Dilema: ESCOLHAS
DOUTOR - Amigos, hoje nós vamos ouvir nosso companheiro Caio. Seja bem-vindo, Caio.
CAIO – Boa noite, amigos.
MELANCÓOLICOS – Boa noite, Caio.
CAIO - É… bem… eu tenho 33 anos e estou angustiado pois acho que fiz uma escolha errada. É como seu eu fosse Jesus e tivesse escolhido a Cruz. Quer dizer, no caso de Jesus, Ele fez a escolha certa, né? Ok, foi uma piada ruim. Como ainda não temos intimidade e hoje é a minha primeira sessão, talvez eu não consiga ser claro nas minhas questões. Ou seja muito claro e vocês é quem não consigam me entender mesmo. Sou técnico de computadores e sonho com o dia em que teremos como acionar, além do famoso botão do foda-se, a combinação de teclas Ctrl+Z, para voltar atrás nas decisões erradas. Eu sei, sei que a vida é feita de escolhas. Eu sei que a vida de uma pessoa é uma espécie de conta de somar que dura décadas. Vamos somando uma decisão aqui, uma decisão ali, outra acolá e assim a vida corre, nem justa nem injusta, apenas coerente com as nossas vontades. Eu poderia não ter vindo nesta reunião. Eu poderia ter ido ao cinema, poderia ter visitado meus pais ou tomado uma overdose de remédios numa tentativa desesperada de não ter mais que decidir porra nenhuma. Embora, decidir morrer, seja a escolha mais importante que um ser vivo possa fazer. Estou sendo muito filosófico? Bem, eu casei no início do ano e não quero mais fazer parte dele. Não quero mais esta relação. Acho que escolhi errado. Eu olho para o mundo lá fora e tenho a sensação que todo mundo é feliz, é seguro… e que só eu perco boa parte do meu tempo dentro do supermercado decidindo se compro uma lasanha de quatro queijos ou de calabresa. Para depois me arrepender e pensar: poxa, na verdade eu poderia ter comprado uma pizza! Pois é. O meu salário não é bom, sequer posso comprar duas caixas de lasanha e uma pizza no mesmo dia. Tenho sempre que escolher. O pobre tem que escolher muito mais que o rico. E toda escolha é uma pressão tão grande na minha cabeça que a sensação que eu tenho… Ai, estou chato, né? Será que todo mundo é assim? Assim, ué, indeciso. Enfim. Eu cheguei a uma conclusão: escolher significa dizer “Sim” para uma coisa e dizer “Não” para outra. E assumir as consequências disso. Eu tenho uma amiga – não sou eu, é amiga mesmo – que vive em cima do muro. Entre o “Sim” e o “Não” ela fica sempre com o “Talvez”. E assim, talvez um dia ela seja uma médica de sucesso. Talvez ela se case. Talvez ela saia com os amigos. E muito talvez, ela seja feliz. Essa minha amiga está paralisada porque não sabe escolher. Ok, eu sei que é antiético falar da vida dos outros na minha consulta, mas eu tenho medo de ficar assim! É muito difícil dizer “Não”. Mais difícil ainda é sustentar o “Não”. E o mais terrível de tudo é assumir para si mesmo que você disse “Não” para uma coisa ótima. Ou que você disse “Sim” para uma coisa péssima! Se eu pudesse, eu não decidiria mais nada e faria como o Zeca Pagodinho: vida, leva eu!
Estava diante do padre e ele me perguntou: “Aceita a Jane como esposa?” Eu poderia dizer “Sim”; eu poderia dizer “Não”. O “Sim” era uma estrada escura e cheia de monstros. O “Não” era um jardim florido e cheiroso. Eu disse “Sim”. Eu, e apenas eu, escolhi a estrada escura. Não posso culpar o padre nem enfiar o dedo na cara da Jane. Entendem? Qual a lógica disso? E eu odeio decidir questões que afetam a vida de outras pessoas. Digamos que eu decida me separar. Mas… e a Jane? Como ela vai ficar? Ela diz que me ama e vai aceitar todos os meus defeitos para sermos felizes juntos. Ela me pediu uma terceira chance. O que eu faço? E… se…. vai que… eu volte atrás na minha decisão e perceba, lá na frente, que a Jane era a mulher da minha vida? E que por um simples impulso e ansiedade eu fiz uma escolha mais errada ainda? Me deu uma vontade chorar agora. Pega mal chorar na frente de desconhecidos?
Não quero que a Jane sinta-se traída ou usada. Eu também não quero ser interpretado mal. Mas estou diante de um dilema: ou eu conserto essa cagada agora ou me calo para sempre. Do jeito que a situação está, eu sei que eu preciso me posicionar. Não agüento mais perder noites de sono idealizando uma outra vida, uma outra cena. Não quero escolher errado! Esse, eu acho, é o meu problema! Meu chefe disse que não saber escolher é coisa de gente insegura. Na minha opinião é coisa de gente perfeccionista. Meu tempo acabou? 30 segundos? Ok. Na verdade vocês não podem me ajudar, porque a vida é minha, a Jane é minha e o casamento é meu. Ninguém sabe o que se passa entre nós. Só eu. E eu sei que preciso decidir o quanto antes. Mas estou sendo muito sincero com vocês, eu não faço idéia de como agir. Até a próxima.
Fotos de Evgeniy Ivanov e Phil Ashley
Tags: Escolhas



