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Chicolatria

Queridos leitores e amantes de Chico Buarque,

É hoje a reestreia de “Meu caro amigo”, no Teatro Sesi/RJ. Espero todos vocês lá! Curtam a temporada.

Trata-se de um drama musicado inspirado em canções do repertório de Chico Buarque. Acompanhada pelo eficiente pianista João Bittencourt, a atriz Kelzy Ecard – vencedora do prêmio da Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro (APTR) 2008 como melhor coadjuvante em Rasga Coração – incorpora a cinquentona Norma, professora de história do Brasil e fã de Chico. Ela decide compartilhar com a plateia sua devoção e suas memórias, já que a obra do compositor serviu de trilha sonora para a sua vida. Visto por mais de 12 mil pessoas!

Teatro Sesi

Lugares: 350
Horário: Quinta a domingo, 19h30. Até 5 de setembro.
Ingresso: R$ 30,00 (meia 15)

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“Meu caro amigo” reestreia dia 29 de julho!

Meus caros amigos leitores,

É com imensa alegria que “Meu caro amigo” voltará em cartaz no Rio de Janeiro, no próximo dia 29 de julho, 19h30, no Teatro Sesi.  Ficaremos em cartaz de quinta à domingo e é mais uma chance para quem ainda não assistiu, conferir este trabalho que nos faz tão felizes.

A peça conta a vida de Norma (Kelzy Ecard), uma professora de História do Brasil apaixonada por Chico Buarque, que decide fazer uma declaração pública de amor ao ídolo. A direção é de Joana Lebreiro e direção musical de Marcelo Alonso Neves. Ao piano João Bittencourt.


 TEATRO SESI. Rua Graça Aranha 1, centro. (21) 2563-4166

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“Meu caro amigo” e trechos cortados

Neste final de semana fechamos com chave de ouro, na encantadora Belo Horizonte, a última rodada de apresentações pelo turnê BR Petrobrás. Em homenagem ao espetáculo e toda a equipe, especialmente Kelzy Ecard, resolvi publicar aqui um trecho da peça que ninguém nunca viu. São duas cenas cortadas durante o processo de ensaios – já que o texto tinha ficado grande demais.

Aproveito para destacar também minha alegria por “Meu caro amigo” estar em Minas, um Estado que sou apaixonado… com pessoas tão acolhedoras! É um sonho realizado!

Sobre os trechos excluídos. A primeira parte é quando Norma fala sobre sua mãe. Nesta cena, que é a primeira da peça que dá uma “vontade de chorar” no público, Norma relembra momentos marcantes – porém simplórios – com sua “grande companheira de infância”. A cena começa com a Ave-Maria, abrindo passagem para “Olha Maria” mesclando música e texto. Para esta cena, escrevi dois trechos. No primeiro, ela fala sobre o episódio do leite condensado e, logo em seguida, sobre um almoço de família na casa de Mauá. Ambos foram inspirados em fatos reais, da minha família. E eu gostava mais do segundo, que foi cortado. (é, ser autor não é mole!)

(Norma fala com a mãe ao pé da cama) Todo mundo comentando que o homem foi na Lua. “Isso é mentira, minha filha, é mentira.” Era informação demais pra cabeça dela… “Com tanta terra aqui, o que é que eles foram fazer lá?” A mãe tinha razão, tem mais samba na terra do que na lua. Mas a única preocupação verdadeira dela era com a nossa família. Teve um episódio, antes do golpe, eu lembro do pai chegando em casa e chamando a mãe pra conversar na cozinha alguma coisa séria. A mãe só respondia “A gente tem que estocar comida, tem que estocar comida”. Ela era precavida, cheia de manias. “Tem que ir comprar, porque vai faltar comida”. E ela voltou do mercado com um monte de lata de leite condensado. (Nostálgica e debochada) Só a mamãe mesmo, estocando leite moça.

(Norma conversa com a mãe na cozinha) Eu nunca perguntei isso, mas como é que a senhora e o pai se conheceram? “Seu pai era muito bonito”, ela só respondia isso. Conta mãe!, a senhora nunca falou nada de vocês dois. “Ai filha, a minha vida é sem graça demais”.

A última lembrança forte que eu tenho dela foi lá em Mauá. Não esqueço, era um almoço, mamãe foi buscar uma salada de fruta. Ela tava meio aérea, porque tinha bebido um pouco e ao invés de servir a salada com a colher, resolveu enfiar os copos direto dentro da tigela pra brincar com a gente. (Norma serve como a mãe) Todos os sobrinhos se animaram e enfiaram os copos na tigela também, até que o pote virou… E voou salada na mesa inteira! O pai levantou, tirou um pedaço de manga do bolso, puto da vida, e falou “Isso é um absurdo, uma palhaçada. Só quero saber quem começou”.

Crente que tinha sido um de nós… E tinha sido a mamãe. (ri)

O segundo trecho foi cortado por completo, a cena intitulada “A Rita do Méier”. Nela, Norma conta ao público que mandou cartas para um programa de rádio nos anos 80 (por causa do boom das terapias), já que estava em crise por ser tão fanática pelo Chico. 

A Rita do Méier

(1985. Apresentador do programa em off) “Vamos ler agora a carta enviada pela Rita do Méier… Ela diz o seguinte…” A Angela me convenceu e eu mandei uma carta pro programa como a Rita do Méier. (voz off do analista) “Seu fanatismo pelo Chico Buarque é fruto e reflexo da sua relação problemática com a figura masculina. Ao romper laços afetivos com a paternidade, seu caso apresenta todos os sintomas do chamado Complexo de Electra, no qual é clara a relação traumática que você criou com seu pai desde a infância. Na falta de um herói, você se apegou à figura de Chico Buarque de Hollanda”. (horrorizada e arrependida) Ele falou esse monte de coisa ao vivo. Ao vivo! No dia seguinte eu não queria sair de casa, eu sentia que tava todo mundo me olhando estranho. Sabiam que a tal Rita do Méier era eu! A minha vida tava aberta pro Brasil inteiro, que eu era mal resolvida e que além de ser o monstro que não falava com meu pai há mais de 10 anos, eu ainda tinha vergonha em ser fã do Chico. Que terapeuta filho da puta! Acabou com a minha auto-estima. Tava me sentindo a própria Geni, só faltava ser apedrejada no meio da rua. O trauma foi tão grande que depois disso eu virei uma fã mais discreta e moderada. Tava acontecendo muita coisa no país e eu ocupei minha cabeça com elas.

(…) Pela primeira vez as Chiquetes se reuniram por um motivo que não era o Chico: assistirmos juntas o último capítulo de Vale Tudo! Epidemia de dengue – lembram quando eu falei que a tendência é a história se repetir? Em 89 o Chico lançou o disco “Chico Buarque”, um dos mais comentados do ano e nesse mesmo ano nós finalmente íamos poder votar num dos 21 candidatos pra Presidente!

E depois, Norma fala sobre o Collor. Ele, inclusive, foi tema de looooongos debates nossos nos ensaios. Eu não queria abrir mão do trecho que falava mal dele, já que de todas as memórias políticas da peça, era a única que eu realmente tinha vivido. Já a Kelzy e Joana (diretora) achavam melhor não perder tempo da peça pra falar de um político como ele. No final, acabou saindo do espetáculo. Mas eu bati o pé até o fim!

Na época a Angela tava namorando um candidato a deputado que era do mesmo partido do Collor e ela queria me convencer a votar nele pra presidente. “Eu não voto no Collor de jeito nenhum, Angela. Admira você, tão politizada, fazer uma cagada dessas!”. Depois do Collor eu não podia mais ver um jet ski, tomei raiva de jet ski por causa dele. (Norma rodeada de faixas do Collor) No dia das eleições do segundo turno, na casa da Tia Glorinha, que também ia votar no Collor, ela tirava rolos e rolos de faixas pra campanha de um quartinho nos fundos da casa. Ela quis me dar uma camisa do Collor “Usa lá em Mauá!”. Nem no meio do mato eu conseguia usar. Sobrou tanta coisa daquela campanha… E até que foi útil. Depois a bisa usou um monte de camisa como fralda. E as faixas do Collor pra forrar o colchão.

Espero que tenham matado um pouco da curiosidade!

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A paródia de “Meu caro amigo”

Quem assistiu “Meu caro amigo” sabe que Norma foi a fundadora das Chiquetes, fã-clube que reunia suas primas na casa de Mauá para ouvirem músicas do Chico.

Claro que até chegarmos à versão final da peça, muita coisa foi cortada pela diretora (Joana Lebreiro) e pela Norma (Kelzy Ecard). A cada semana um trecho diferente da peça ia para a berlinda. O comentário que Norma faz, por exemplo, que Tio Virgílio aproveitou os desaparecimentos da ditadura e fugiu para o Recife com a amante foi uma dessas falas delicadas que beirou ser cortada até o último momento. Assim como a inserção de Cálice no repertório musical, que chegou a abrir a peça, chegou a ser cantada por Norma, depois quase foi cortada e blá blá blá. Como autor, cada ida e vinda da geladeira do processo era uma dor e eu preferi não participar dos cortes mais radicais.

E isso aconteceu com um momento da peça que nós amávamos: a hora em que Norma cantava, quando jovem, a paródia de “Meu caro amigo” que as Chiquetes fizeram e ganharam o concurso do colégio. Até pouquíssimo antes da estréia, existia a vontade da equipe que a música entrasse na peça. Kelzy foi para o estúdio e gravou a música. Mas conforme a peça ia se encaixando e ganhando forma, ritmo, a diretora percebia que a paródia não tinha espaço e podia ser uma quebra de linguaguem muito brusca. Pior para Kelzy: o que fazer no palco durante o tempo que a música rolava para o público, já que era uma versão que, teoricamente, o público deveria ouvir para curtir a paródia?

Por fim, a versão das Chiquetes deixou o espetáculo e, poucos perceberam, depois dos aplausos do público, era ela quem ficava tocando baixinho para a saída das pessoas. Mas, é claro, ninguém se deu conta disso.

Como sou um autor apegado, arrumei uma ótima forma de driblar meus diretores: vou fazer do “Melancia” um espaço para publicar as cenas cortadas que eu gosto, hahahaha! Daí, para brindar a estréia deste blog, em primeiríssima mão… Chiquetes, esta é pra vocês!

Meu Caro Amigo
As Chiquetes

Meu caro espelho me responde, por favor
Se para o Chico sou bonita
Pois como agora eu passei o medidor
Minha cintura está mais fina

Aqui no quarto tá cantando o rouxinol
Deixei de lado o Roberto e rock and roll
Só penso em ti no faça chuva, faça sol
Mas o que eu quero lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita promessa pra levar para o colchão
Pra você eu dou comida, dou amor, dou minha casa
Pra você eu dou até o que não dei pro boa-praça
Ninguém segura o meu tesão!

Meu caro Chico eu não prometo lhe poupar
Até das obscenidades
Mas acontece que se eu não puder falar
Vou explodir de ansiedade
Aqui no quarto tá cantando o rouxinol
Deixei de lado o Roberto e rock and roll
Só penso em ti no faça chuva, faça sol
Mas o que eu quero lhe dizer que a coisa aqui tá preta
É uma punheta saciar a solidão
Que a gente vai sonhando com beijinho, com abraço
E o povo comentando que, também, “um partidasso!”
É muita imaginação

Fiz o cabelo, agora vou me maquiar
Eu ando muito ocupada
Estou aflita, começo a me preocupar
A minha pele é uva passa

Aqui no quarto tá cantando o rouxinol
Deixei de lado o Roberto e rock and roll
Só penso em ti no faça chuva, faça sol
Mas o que eu quero lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita conversa pra ouvir na multidão
A gente vai beijando muito sapo no caminho
Meu príncipe encantado se perdeu, está sozinho
Ninguém segura a depressão

Para o meu pai “eu bem queria lhe dizer”
Mas o senhor anda arisco
Se permite, eu preciso precaver
Que esse amor eu não resisto

Aqui no quarto tá cantando o rouxinol
Deixei de lado o Roberto e rock and roll
Só penso em ti no faça chuva, faça sol
Mas o que eu quero lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Dessa maneira eu cativo os olhos teus
Eu fico te esperando, é muita fé e esperança
Por isso me distraio, vou vivendo essa lambança
A todas Chiquetes
Valeu!

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