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Quem tem medo de Hugo Chavez?

Eu ainda não decidi meu voto para Presidente nas próximas eleições, e entre Dilma e Serra, a minha cabeça não sai de Hugo Chavez. A cada notícia sobre as decisões polêmicas do presidente da Venezuela, como a recente censura às emissoras do país, fica claro pra mim como basta uma escolha errada na hora do voto para colocarmos no poder uma pessoa que… não sabe lidar com o poder.

Embora não tenha vivido a ditadura militar, ela é um fantasma recorrente no meu imaginário, como se fosse uma bruxa acorrentada dentro de nossos armários ansiosa para que um distraído esqueça a porta aberta e ela retorne cruel e vingativa.

Em março deste ano vivi um episódio triste. Junto com o amigo e diretor Felipe Herzog, levamos para Petrópolis, nossa cidade natal, o espetáculo “Inês é morta”, onde a figura principal da história é a própria Morte. Como a cidade está acostumada a lotar o teatro apenas com figuras globais no elenco, traçamos uma estratégia de divulgação diferenciada: uma semana antes da apresentação, sairíamos num cortejo fúnebre pela cidade carregando um caixão e acompanhados de Samile Cunha, a drag-queen que interpreta a Morte.

Depois de muita burocracia para conseguirmos a autorização para o cortejo, uma hora antes da partida a Secretaria de Posturas da cidade resolveu voltar atrás em sua decisão e proibir nossa saída com o caixão. É importante ressaltar que o Prefeito da Cidade Imperial é Paulo Mustrangi, do PT. É importante ressaltar ainda que eu votei nele. E mais, que como eleitor sempre procurei privilegiar o partido, ou seja, não sou eleitor apenas de candidato, mas de sigla. Por essas três razões - e todas as outras (que eu levaria um post enorme para enumerar)-, me senti totalmente frustrado e decepcionado. Primeiro, como artista. Depois como eleitor. E, por fim, o mais fundamental: como cidadão.

Segundo comunicado da Secretaria de Posturas nossa ação poderia ser interpretada como uma metáfora, como o “enterro do prefeito da cidade”. E, por isso, estávamos proibidos de sair com o caixão. Depois de muita irritação, o diretor teve a ideia de seguirmos pela cidade com uma coroa de flores e falamos abertamente com a impressa local sobre o triste acontecimento. Como resultado da polêmica, Petrópolis parou com a Morte andando pela cidade e tivemos duas apresentações com o teatro lotado.

Esse episódio que vivemos com “Inês é morta” foi inesquecível e amedrontador, como uma gargalhada da bruxa que ecoou no quintal da minha casa. Faço questão de registrar este episódio aqui no blog pois é muito grave e sinaliza a moral da história: ninguém precisa levar só o Hugo Chavez ou qualquer outro governo autoritário em consideração na hora de eleger seus representantes. REPRESENTANTE. Quando o governo de Petrópolis proibiu nossa saída com um argumento ilegítimo e arbitrário, eu nunca me senti tão mal representado na minha vida. E além disso, ainda que nosso intuito fosse mesmo falar mal deles, cadê a nossa liberdade de expressão?

A China sofre nas mãos de um governo que censura, inclusive, motores de busca como o Google ou proibe shows de Robbie Williams ou Oasis. Cuba, de Fidel Castro, tira o direito sagrado de ir e vir de seus cidadãos e a blogueira Yoani Sànchez, precisou enviar uma carta ao Lula solicitando ajuda para receber autorização para ir a Bahia.

Tudo isso me fez refletir. Quando um governante autoritário está no poder, a primeira cabeça a ser cortada é a da classe artística, pois de fato, é o maior perigo numa estratégia onde “quem pensa, quem questiona” é uma ameaça. O Brasil já viveu tristes anos nas mãos dos militares e nossa memória é marcada pelas histórias reais mais covardes e brutais. Ao mesmo tempo, nos deu como legado artistas geniais como Chico Buarque, que soube driblar todo esse terror e nos brindar com Cálice, por exemplo. Mas Chico, convenhamos, só existe um.

Nenhum direito conquistado é óbvio. Eu, por exemplo, posso acreditar que é um direito inabalável do cidadão ter um blog pessoal e publicar, livremente, a sua opinião. Mas se amanhã um ignorante estiver no poder e decidir que “Melancia em pó”, é na verdade uma metáfora para cocaína e quiserem me prender e depois me torturar até eu confessar que sou, sim, um chefe do tráfico de drogas, eles podem fazer isso comigo. E o blog sai do ar. E eu entro para a triste estatística dos que sumiram com a ditadura.

Tenho arrepios só de imaginar uma situação dessas. E eu sei que o poder de decisão está nas minhas mãos. Não quero insinuar que Dilma ou Serra, ou qualquer outro candidato, seja um ditador em potencial. Muita gente pensou isso do Lula e elegemos um mestre da diplomacia.  O complexo é que mesmo votando com toda consciência, ainda corremos o risco de fazer uma escolha ruim. Por isso, a atenção deve ser redobrada. Devemos saber o passado político de quem se candidata, repito, como nosso REPRESENTANTE. 

A bruxa está aí, louca para ser solta.

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