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Mil e uma utilidades

Queria dormir e deixar este post pra outro dia, mas não consegui. Como é um assunto complexo, ele vai render litros e litros de suco no blog. Neste momento, inclusive, estou via MSN conversando com o amigo Danilo Marcks sobre o assunto. Não chegamos à conclusão alguma e o importante mesmo é refletir.

A pergunta e ponto de partida é um clichê: o que você vai ser quando crescer?

Quando eu leio que fulano é “ator, diretor, produtor, cenógrafo e artista plástico” admito: faço uma pausa preconceituosa de 5 segundos e reflito “Mas se é tão difícil ser uma coisa só, como é que fulano se diz tantas ao mesmo tempo?” Ok. Podemos vir com o discurso romântico ou idealista que “ser uma coisa só” é limitador e que ninguém precisa ser rotulado. Eu, pessoalmente, não tenho medo nenhum dos rótulos. Inclusive, hoje em dia, acredito que os rótulos estão fazendo falta. É uma comparação besta e pobre, mas não dá pra vender catchup como maionese, né?

Quem trabalha com teatro, e isso é maravilhoso, aprende de tudo um pouco. O ator descobre que é legal ter noções de indumentária. E o cenógrafo aprender a fazer a luz. E o diretor também é programador visual. No meu caso, por exemplo, como aluno de direção teatral, tive noções básicas de tudo: de maquiagem à filosofia, de cenário à luz, de poética à atuação. No entanto, por mais que eu goste de várias destas áreas, e por mais que eu tenha concebido o cenário de uma montagem da qual dirigi, eu não posso me considerar cenógrafo. Por uma questão simples: eu não estudo pra isso. Eu não me aprofundo. É claro que a área artística é complexa e, por exemplo, um “ator sem diploma” pode ser muito mais qualificado que um “ator com diploma”. Diploma, inclusive, é só um pedaço de papel que pode ser amassado e ficar dentro de uma gaveta. O que importa, na verdade, é você não se deixar empoeirar.

Existe uma pressão do mercado de trabalho para que sejamos profissionais qualificados e que tenhamos uma carreira, especialmente hoje em dia, quando uma mesma profissão possui uma série de ramificações. Como é o caso do escritor, por exemplo. Posso trabalhar como roteirista, como dramatrugo, como novelista, como literário. Você não é simplesmente médico. Ou você é cardiologista ou nutricionista ou pediatra ou fisioterapeuta ou psiquiatra.

Você, leitor, confiaria num dentista que se diz terapeuta e podólogo? Eu não. Por isso, seguindo essa lógica, eu acho perigoso um rapaz de 25 anos bancar em seu currículo que é produtor, ator e figurinista. Aí entra a falta de humildade e a necessidade de estudo. Posso, perfeitamente, conhecer um dentista, terapeuta e podólogo. Mas sabe qual a probabilidade disso acontecer? Quase nula. Porque o dentista sabe como ele teve que estudar para fazer odontologia e como a profissão dele exige um constante aperfeiçoamento. O tal “merda!” do teatro é que qualquer um se considera artista e, em nome de uma suposta vocação ou talento, se desobriga a estudar. E acredita que resolve tudo na base da intuição, da inspiração súbita ou do sexto sentido.

Muito mais do que isso. Quando alguém escolhe uma profissão, creio que o sub-texto dessa escolha é: eu enxergo e me relaciono com o mundo através desta perspectiva. Eu não sou escritor apenas quando estou em frente ao computador. Eu sou escritor comprando pão, exercendo meu direito ao voto ou ajudando uma senhora a atravessar a rua. Eu sou escritor fazendo sexo. Talvez, puxando a  nossa sardinha, essa relação com mundo seja potencializada quando se trabalha com arte já que no campo artístico tudo é matéria de criação. O artista é um ser curioso por natureza.

Penso, também, que somos pressionados cada vez mais cedo a escolher uma carreira. E que é super injusto ter que decidir aos 19 anos ser diretor de teatro. Ou ser advogado. Somos uma imensidão de desejos nessa idade e precisamos, sim, experimentar. Mas “experiência” é diferente de “exercício”. Um profissional, de qualquer área que seja, deve exercitar-se constantemente. Ou vai ficar pra trás, fora de forma. Não acho correto ter uma experiência como produtor e me considerar um.

Quando se aprende de tudo um pouco no teatro, a lição que fica antes de enchermos o currículo com nossas mil e uma utilidades, é que o artista deve ser um empreendedor. E não tem que ficar esperando ninguém para trabalhar. Por isso, devemos ter cuidado: o seu currículo de “ator, diretor, cineasta e músico” pode revelar que, ao invés de versátil e empreendedor, você é apenas superficial e amador.

ps. o assunto é complexo e, assim como eu, você pode ter sido bombardeado de questões, reflexões, perguntas e questionamentos. Este post foi escrito ao calor da madrugada e é apenas um ponto de partida. E por tratar de um assunto tão complexo e tão pouco definitivo em suas conclusões, posso ter pecado pela superficialidade também. Voltarei ao assunto outras vezes!

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